|
|
        
|
CRONOGRAMA DE TRABALHO PARA TEORIA DA CENA - CENOGRAFIA / 2 ANO
|
|
PLANO TEMPORAL: CH 45 h. / 17 SEMANAS / 15 ENCONTROS / 02 FERIADOS
|
|
Conteúdos e Atividades
|
|
1º Encontro: Conhecimento da disciplina
* Apresentação dos participantes da disciplina (professora e alunos).
* Apresentação do programa da disciplina.
Espaço para esclarecimentos.
* Identificação e reconhecimento do elenco de práticos e suas funções artísticas nos processos de criação das montagens que serão estudadas (06).
* Exposição dos trabalhos acadêmicos a serem realizados e suas respectivas propostas de procedimentos.
- Construção do Diário de Bordo da disciplina.
- Coleta e organização dos Registros de Processos de Criação.
- Construção dos Ensaios.
- Publicação dos Ensaios (ON-LINE e OFF-LINE).
Espaço para esclarecimentos.
* Exposição dos referenciais a serem estudados (referências e fontes de pesquisas).
* Solicitar a escritura do texto “Meu Porto de Partida” (abertura do Diário de Bordo)
Espaço para reflexão. (mote: o ato de conversar sobre teatro).
|
|
2º Encontro: Partilhar os “primeiros passos”.
* Leitura coletiva do texto “A Porta Aberta” de Peter Brook.
* Leitura dos textos “Meu Porto de Partida” (abertura dos Diários de Bordo)
Espaço para reflexão.
* Exposição do exercício “o espectador imaginário”.
* Leitura de um dos textos produzidos em turmas anteriores ( autor: Renato Torres)
Espaço para esclarecimentos partilhando com o coletivo um dos trabalhos das turmas anteriores
* Prática de escritura.
* Leitura livre dos escritos.
Espaço para reflexão.
|
|
3º Encontro: A Essência do Teatro segundo Ortega y Gasset (1883- 1955).
* Exposição do texto “A Idéia do Teatro” (uso de multimídia).
* Formulação de questões.
Espaço para esclarecimentos.
* Prática de escritura em grupos organizados por espetáculos (otimização dos trabalhos: decupagem das práticas cênicas de 2008, através dos registros de processo, montagem e apresentações dos espetáculos (análise, roteiro para a produção textual e customização de imagens).
* Leitura livre dos procedimentos de escrita.
Espaço para reflexão.
|
|
4º Encontro: DIA MUNDIAL DO TEATRO
Participação da turma no 1º ENCONTRO DE BLOGUEIROS DO TEATRO DO ESTADO DO PARÁ realizado pelo projeto de extensão Observatório do Teatro na Web da ETDUFPA.
|
|
5º Encontro: A Cena Realista de André Antoine (1859 – 1943).
Exposição do texto-colagem da professora+ (uso de multimídia).
* Formulação de questões.
Espaço para esclarecimentos.
* Prática de escritura em grupos, organizados por espetáculos.
* Leitura livre dos procedimentos de escrita.
Espaço para reflexão.
|
|
6º Encontro: A Cena Simbolista de Edward Gordon Crag (1872-1966) e Adolphe Appia (1862-1928).
Exposição do texto-colagem da professora+ (uso de multimídia).
* Formulação de questões.
Espaço para esclarecimentos.
* Prática de escritura em grupos, organizados por espetáculos.
* Leitura livre dos procedimentos de escrita.
Espaço para reflexão.
|
|
7º Encontro: A Cena Épica de Bertold Brecht (1898 – 1956).
Exposição de texto-colagem da professora baseado nos Diários de Trabalho de BB.+ (uso de multimídia).
* Formulação de questões.
Espaço para esclarecimentos.
* Prática de escritura em grupos, organizados por espetáculos.
* Leitura livre dos procedimentos de escrita.
Espaço para reflexão.
|
8º Encontro: A Cena Sagrada de Antonin Artaud (1896-1948).
Exposição do texto-colagem da professora baseado no Teatro e seu Duplo de AA. + (uso de multimídia).
* Formulação de questões.
Espaço para esclarecimentos.
* Prática de escritura em grupos, organizados por espetáculos.
* Leitura livre dos procedimentos de escrita.
Espaço para reflexão.
|
|
FERIADO
|
|
9º Encontro: A Cena Política de Erwin Piscator (1893 -1966) e Tadeusz Kantor (1915 – 1990).
Exposição de texto-colagem da professora baseado no Teatro da Morte de TK. + (uso de multimídia).
* Formulação de questões.
Espaço para esclarecimentos.
* Prática de escritura em grupos, organizados por espetáculos.
* Leitura livre dos procedimentos de escrita.
Espaço para reflexão.
|
10º Encontro: A Fórmula Espacial Unitária de Jerzy Grotowski (1933 – 1999).
Exposição do texto “A Possibilidade do Teatro – Materiais de trabalho do Teatro das 13 Filas Opole” (uso de multimídia).
* Formulação de questões.
Espaço para esclarecimentos.
* Prática de escritura em grupos, organizados por espetáculos.
* Leitura livre dos procedimentos de escrita.
Espaço para reflexão.
|
|
FERIADO
|
|
11º Encontro: Ensaio Geral dos Seminários com a presença dos coordenadores de cenografia.
|
|
12º Encontro: Seminário “Praticantes da cena em atos e reflexos”. Evento com a participação dos cenógrafos das montagens analisadas.
|
|
13º Encontro: Preparação do material para publicação digital (designer gráfico, revisão dos textos e complementos).
|
|
14º Encontro: Lançamento da publicação / análise da recepção (Comemoração com a equipe diretores, atores e convidados).
|
|
15º Encontro: Entrega dos Diários de Bordo e Avaliação geral da disciplina.
O que mais ocorrer.
|
|
CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO DA DISCIPLINA:
Presença em sala de aula. Leitura do material bibliográfico. Participação nos debates das aulas expositivas. Empenho na coleta dos registros das Práticas de Montagens realizadas em 2007. Organização dos conteúdos a serem coletados em depoimento dos criadores de cena. Trabalho analítico atualizado. Periodicidade nas construções textuais. Organização e criatividade nas apresentações dos trabalhos. Presença efetiva nos trabalhos em grupo. Autoria na construção dos ensaios – O Espectador Imaginário. Empenho e criatividade na defesa e publicação dos ensaios. Precisão na construção e apresentação do Diário de Bordo da disciplina.
A avaliação requer compreensão de todo o processo de ensino/aprendizagem da disciplina. Por isso, é imprescindível a aplicação da “avaliação continuada”, cujo princípio de verificação tanto da apreensão quanto da criação de conteúdos se dá, de forma processual e não no formato do provado (utilização de provas).
| MINHA NOVA PESQUISA EM ARTE
PROJETO: BONECOS ? (que) IN BUST !
VISITE!
Para dar vontade de ver posto no álbum fotos do novo espetáculo da In Bust: "O conto que vim contar".
Eu não poderia deixar de falar desse espaço que abre a fala para uma comunidade ilhada.
O glamour da zona decadente
As disparidades entre o ontem e o hoje na zona do meretrício
1970. O então governador Alacid Nunes desce a rua Riachuelo em direção ao palácio Antônio Lemos. Em uma das esquinas, a prostituta, amanhecida e ainda meio bêbada, levanta a saia, expõe a mercadoria e convida: - Ei, governador! Vem chupar essa buceta aqui, vem! O incidente foi a gota d`água em um copo que há tempos estava prestes a transbordar. Ofendido e constrangido, o governador ordena o fechamento da zona. A partir desse fato a ditadura passou a intervir na área do meretrício, manteve cerca de 2.800 prostitutas confinadas dentro de suas estreitas ruas. Militares passam a vigiar dia e noite todo o perímetro e as profissionais do sexo ficam em estado de sítio, isoladas do resto da cidade. A situação perdura por três anos, até que unidas, conseguem uma ordem judicial que lhes devolvem o direito de ir e vir na cidade. Porém a zona nunca mais foi a mesma. Com a liberação sexual nos anos 70, onde o sexo já começa a não ser considerado mais um tabu, especialmente pelas mulheres, a zona passa a existir hoje para um homem mais carente. As grandes damas, amantes de homens que detinham um alto poder aquisitivo já não mais existem. Assim como a vida boêmia nos glamourosos cabarets, agora, permanecem apenas na lembrança. Porém, essa decadência traz também a organização. O Grupo de Mulheres Prostitutas da Área Central (Gempac) surge nos anos 80 para trazer informações e auxílio a trabalhadoras do sexo. Com o advento da AIDS, e a “popularização” das DSTs, puta vira sinônimo de doença. No coração da zona, a organização instala-se no casarão onde funcionava o Rola Drink’s, cabaret popular, conhecido na área pelo barulho, brigas e visitas da polícia. Neste local hoje há distribuição gratuita de preservativos, orientação psicológica e cursos são oferecidos às prostitutas, com o objetivo de prepará-las para as novas exigências do “mercado”. Quem anda a noite pelo bairro da Campina não mais sente o cheiro de laquê e perfumes franceses. A região hoje exala um odor forte de mijo, é referencial de tráfico de drogas e ruas que exibem um cenário de mendigos, pivetes, bares popularizados e prostitutas de todas as idades que vendem seus corpos por até R$ 5,00. A decadência econômico-social se instala no centro da cidade. Mas quem ali viveu nos anos 50 e 60 não pode e não quer esquecer.
O Glamour
A luz vermelha ocupa a escuridão da noite, música alta exigindo mais da voz de quem tenta atenção, um espelho de porte considerável exaltando a vaidade que ocupa aquele quartinho romântico, maior testemunha do pecado constante. Na frente desse espelho ela se arruma, se maquia e se perfuma, para todos e para qualquer um. Esse era o camarim onde as estrelas da vida real se preparavam para a longa noite que as esperava. Entre o desejo e a necessidade, centenas de mulheres tomavam as rédeas de sua própria vida e em um dos períodos mais machistas da história do Pará, provavam sua força e transformavam grandes heróis do estado em meninos ingênuos perdidos entre a excitação e o poder. Belém, século XIX, a zona cresce junto com a população da cidade e vive seu apogeu. Quando não se tinha nada para fazer e muito dinheiro para gastar, o sexo se tornava moeda de troca e quem o dominava e sabia fazer uso dele, lucrava. Inicia-se assim o comercio de prazeres, onde tudo pode acontecer e tem seu preço. Casarões de arquitetura imponente recebiam cedo da noite os primeiros rapazes em busca do proibido e definiam o bairro da Campina com uma estrutura ao mesmo tempo pomposa e comercial. Sendo a única atração noturna da cidade, a zona não se resumia somente a esse tipo de relação de mercado, mas sim a espetáculos regados à música, dança e outros tipos de diversão, o que levava diversos casais a aproveitarem juntos a noite na zona. Por outro lado, esse tipo de publico exigia um comportamento mais intelectualizado por parte das anfitriãs, coisa que os próprios estrangeiros também procuravam, consumiam e patrocinavam. A procura destes era tão grande que em Belém, diversas casas mais sofisticadas eram reservadas a eles, fato este que por si só cobrava dessas meninas o mínimo de conhecimento sobre outros idiomas, isso é, quando elas mesmas não eram importadas. A Campina se tornava uma torre de babel de luxo e exalava perfumes diversos. Com um tom surreal no coração de uma cidade provinciana mas promissora, as mulheres da zona enriqueciam, roubavam a cena e deixavam sua marca na história. Quem nasceu primeiro: A zona ou a Igreja? “Onde começa uma cidade, começa uma zona!” afirma Lourdes Barreto, prostituta das antigas que se tornou referência devido as tentativas de revitalização da zona. A informação de que a prostituição é a profissão feminina mais antiga do mundo responde a pergunta acima, porém, a referida profissão encontrou em diversas religiões seu arqui-rival. Nascida de uma necessidade social, a prostituição foi viabilizada pelo mercantilismo que possibilitava grandes acúmulos de riqueza de um lado e absoluta pobreza de outro. Homens pagavam mulheres pelo sexo por diferentes motivos, geralmente ligados à sua classe. Os mais pobres simplesmente não tinham dinheiro para manter uma esposa e constituir família, os da classe média trabalhadora, muitas vezes ocupados demais em suas funções, preferiam pagar pelo sexo à arranjar uma esposa e constituir família. Já os mais ricos, gostavam de desfrutar de relações com diferentes mulheres sem precisar construir um dispendioso harém particular.Em qualquer das situações, era sempre economicamente vantajoso recorrer aos serviços de uma prostituta. Mas não se engane, essas profissionais sempre foram vítimas de perseguição. Em todo os lugares e em todas as épocas. Discriminadas pelo senso de moral colocado pelas religiões, as prostitutas já foram submetidas ás mais diversas exigências, que vão desde cadastros especiais ao uso de roupas que as diferenciassem das “demais mulheres honestas”. No Brasil, o preconceito baseia-se nas doutrinas da Igreja Católica, pois a prostituição ameaça a monogamia do casamento (sacramento que dá origem a célula mais importante da religião: a família), prima pelo prazer e corrompe o ato sagrado da reprodução. Contudo, as necessidades humanas permitem que a “indústria da culpa”, que movimenta a Igreja desde sempre, continue funcionando a pleno vapor, afinal, o que teríamos para arrepender e confessar se não pecássemos em primeiro lugar? A igreja do Rosário dos Homens Pretos foi construída dentro da, já funcional, primeira zona de Belém. E essa paróquia foi responsável por um combate ferrenho às funções da zona, ora por acolhimento dos grupos de senhoras, que distribuíam cestas básicas e aconselhavam as “pobres pecadoras” do local, ora por pura repressão, incorporando e demolindo diversos bordéis, que alegavam terem sido construídos em terreno da Igreja. Se na batalha Igreja Católica VS. Zona da Riachuelo, a Igreja está rindo por último; na guerra travada pela mesma à prostituição, ainda apanha de lavada. Diariamente, em todo o mundo, moças chegam, por diversos motivos, ás zonas de meretrício. E essa realidade não está perto de mudar, pois, em nossa sociedade ainda mercantilista, onde se iniciar uma cidade, começará também uma zona.
A zona nos palcos
O Grupo Cuíra de Teatro, cuja sede fica no coração da zona, criou o espetáculo Laquê. A peça retrata no texto a história real de uma garota de programa que se apaixonou por um marinheiro e, depois de descobrir que ele se casaria com outra, ateou fogo em si mesma e morreu. A encenação se passa na década de 50, época áurea da zona no meretrício, e é ambientada no carnaval - com direito a marchinhas como trilha sonora, cantadas pelos atores. Wlad Lima e Cláudio Barros, os diretores do espetáculo, incluíram moradores da zona e garotas de programa no elenco, como uma forma de quebrar preconceitos e auxiliar na inclusão social. O espetáculo investe também na tentativa de humanizar a prostituição. "Prostituta não é só corpo não. Prostituta também é gente, tem alma, se apaixona. Prostituta assiste à novela e fica sonhando com a vida que as prostitutas têm na televisão", diz uma personagem durante a peça. Segundo Cláudio Barros, o objetivo do Grupo Cuíra é promover a "desmarginalização" da zona e aproximar o público de classe média da realidade do lugar, já que "inegavelmente, a zona do meretrício é não só área de prostituição como faz parte do patrimônio histórico-cultural de Belém". Atriz há 30 anos, diretora de teatro e dança, professora de teatro da UFPA, Wlad Lima conta um pouco da experiência com o espetáculo Laquê, sucesso de público e crítica em Belém.
Tyara: Sabemos que no espetáculo Laquê existe também a atuação de prostitutas da zona do meretrício. Como foi a experiência de trabalhar elas?
Wlad: Foi muito interessante. Fizemos num primeiro momento um teatro laboratório com elas para mais tarde realizarmos uma oficina de um mês para integrar todo o elenco. Elas receberam ainda um cuidado maior através dos apoios conseguidos pelo grupo, como odontológico, limpeza de pele, corte de cabelo, ginecológico entre outros. As prostitutas que atuam na peça são as mais maduras, são mães e até avós. Elas fazem programas durante o dia e a noite estão livres para poderem trabalhar no espetáculo. Foi um trabalho sensacional, o aprendizado não foi apenas para elas e sim para os dois lados.
Tyara: Mas como surgiu a idéia de incluir no elenco as profissionais do sexo?
Wlad: O nosso objetivo é também o trabalho social pela arte e esse engajamento, aplicado à zona do meretrício veio do convívio com a área vizinha. A principal estratégia foi mesclar o elenco para não se saber quem é quem, até por que existem casos ali em que os familiares desconhecem que a prostituição é uma realidade na vida de sua parenta. Por isso tivemos todo o cuidado com a exposição dessas mulheres. Ali elas são atrizes.
Tyara: Quanto tempo de preparação vocês tiveram para o espetáculo estar pronto?
Wlad: Cinco meses de dedicação. Começamos em outubro de 2006 e Laquê estreou em Abril deste ano.
Tyara: Hoje a zona não respira mais o glamour de antigamente. É um perímetro discriminado, marginalizado e de certa forma esquecido. Com a abertura do espaço Cuíra, localizado no coração da zona do meretrício, podemos dizer que houve uma tentativa de resgate da zona? Existe no bairro da Campina muitos espaços culturais e nos últimos tempos alguns artistas estão comprando casas e transformando em locais que abraçam a arte, como o do Mariano Klautau, o porão “Puta merda” na minha casa, o fotoativa do Miguel Chikaoka, Basa entre outros. O grande barato do espaço Cuíra, além da maior acessibilidade econômica ao público, é fazer as pessoas refletirem sobre o lugar. Desenvolver um trabalho social por meio da arte e através dos temas apresentados nos espetáculos fomentar uma reflexão.
Tyara: Você pretende dar continuidade em próximos trabalhos com as prostitutas?
Wlad: Com certeza, por que não continuar? Algumas delas já declararam que gostaram muito da experiência com o teatro e pretendem seguir a carreira de atriz.
Produção dos textos em parceria com Fernanda Martins, Márcio Moreira, Diva Nassar e Camila Barbalho, todos acadêmicos de jornalismo.
http://wwwtyaradelarocque.blogspot.com/
O teatro ao alcance do tato
Alberto Silva Neto*
Especial para o Magazine
Verdade seja dita: o nome de Wlad Lima é referência no teatro paraense. Ela, certamente, vai odiar essa afirmação. Indiferente a elogios de circunstância e holofotes ocasionais, essa atriz, diretora e professora paraense de 46 anos, prefere estar focada nas pesquisas que realiza sobre a arte abraçada para toda a vida. Agora, como resultado dessa investigação, uma parte importante de sua produção – os últimos 18 anos, mais precisamente – ganha um estudo em forma de tese de doutoramento, pelas mãos da própria artista. “A investigação e análise de minhas próprias obras com o objetivo de revelar a poética inscrita nesses corpos cênicos (...) foi algo que me exigiu uma espécie de sobrevôo na criação. Não com o intuito de ver de cima, de fora, mas sim com a autonomia de poder reinventar a mim mesma, sempre. Reinvenção de minha imanência (vida) e de minha obra”, escreve ela na tese. Engana-se, porém, quem acha que aqui está se falando ao próprio umbigo, quando a abordagem daquilo que é pessoal restringe o alcance do trabalho; ao contrário, trata-se de uma investigação fundamentada em fatos que lançam luzes sobre a natureza e o sentido do fazer teatral em Belém, nas últimas duas décadas.
O estudo começa com a definição de um espaço para essa prática teatral, que recaiu sobre um traço herdado da arquitetura portuguesa – os porões. A tese afirma que a natureza desses espaços tão peculiares constitui uma estética própria e uma prática teatral específica de Belém do Pará. “São verdadeiras poéticas cênicas encravadas em porões”, define Wlad. “Nos últimos 18 anos, foram montados 50 espetáculos em porões da cidade”, completa, revelando dados surpreendentes que expressam o volume significativo dessa produção. Desses espetáculos, onze foram dirigidos por ela, em quatro porões diferentes, e são eles que compõem o objeto da investigação.
Tudo começou em 1989, quando Wlad assistiu ao espetáculo “Josefina, a cantora”, uma versão cênica para o conto de Franz Kafka criada e interpretada pelo francês François Kahn. A montagem foi apresentada no porão do Teatro da Paz, coisa até então inédita na cidade. Quando o espetáculo acabou, a espectadora Wlad Lima estava estupefata. “Naquele momento senti que queria fazer teatro em porões”, lembra. E o primeiro espetáculo dirigido por ela em um espaço semelhante veio já no ano seguinte. O porão da casa que até hoje sedia a Universidade Popular (Unipop), entidade para a qual coordenava atividades culturais, virou cenário para “Dama da Noite”, do grupo Cuíra do Pará, com versão de Kil Abreu para o conto de Caio Fernando Abreu. Dois anos depois, em 1992, montou uma versão da peça “Hamlet”, de Shakespeare, já com o Grupo de Teatro da Unipop. Em ambas as montagens, a ação cênica envolvia atores e espectadores em um mesmo espaço. Nascia ali uma das características mais marcantes da encenadora, que desde então já bebia na fonte inesgotável do pensamento de Jerzy Grotowski, diretor polonês do Século 20 que entrou para a história principalmente ao eliminar a distinção entre palco e platéia, e defender que a essência do teatro está no contato humano entre ator e espectador.
Escola - O segundo e terceiro espaços surgiram quando a Escola de Teatro e Dança da UFPA, da qual Wlad já era professora, se mudou para uma casa com porões. Ali Wlad realizou cinco espetáculos, sempre com alunos-atores. Foram eles “Mariano”, em 1996, com texto do paraense Paulo Faria; “Do que brincam os meninos que serão poetas?”, em 1997, inspirado na obra de Federico Garcia Lorca; “Maravilhosa Orlando”, em 1999, com texto de Antar Rohit; “Circo Vitória”, em 2001, outra vez de Paulo Faria; e “A-mor-te-mor”, em 2002, a partir do romance “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez, e criado em parceria com a diretora e professora Karine Jansen. Os quatro últimos foram montados no porão transformado em Teatro Experimental Cláudio Barradas, mas o primeiro é fruto de uma história curiosa e reveladora dos caminhos cênicos percorridos por ela. Para realizar a montagem de “Mariano”, recusou o teatro experimental para “inventar” outro, bem mais acanhado, mas com o intimismo e o despojamento que queria. O trabalho foi tão marcante, que depois da temporada o porãozinho passou a ser chamado de Espaço Mariano, e abrigou outras montagens.
Entrecortando essa produção ligada às funções que exercia naquelas instituições, Wlad já começava uma nova fase de criação, agora em espaços independentes. O primeiro foi o Teatro Bufo, considerado o primeiro teatro de bolso da cidade. Administrado pela Dramática Companhia, fundada por ela, o espaço abrigou quatro de suas encenações. As três primeiras foram realizadas no mesmo ano, em 2001: “Duas tábuas e uma paixão”, colagem na qual fazia uma declaração de amor ao teatro, “Como um beija-flor a dois metros do chão”, sobre vida e obra de Arthur Bispo do Rosário, e “Devagarinho... Eu deixo”, a partir de obra do dramaturgo Elcione Araújo, e que inaugurava a Escola de Bufões, criada para formar novos atores. A fase do Espaço Bufo se fecha em 2002, com a montagem de “Água Ar Dente”, a partir da peça “John e Joe”, da dramaturga húngara Agotha Kristof, pelo grupo Cuíra do Pará.
Uma artista que se revela em carne e osso
A tese de doutoramento “O teatro ao alcance do tato – Uma poética encravada nos porões da cidade de Belém do Pará” consumiu três anos de dedicação, e é realizada pela Universidade Federal da Bahia. A oportunidade surgiu logo depois que Wlad concluiu o mestrado, juntamente com outros 16 professores da Escola de Teatro e Dança da UFPA, a partir de convênio entre as duas universidades. O tema foi a Dramaturgia Pessoal do Ator, investigada durante o processo de criação do espetáculo “Hamlet – Um Extrato de Nós”, montado em 2001 pelo Grupo Cuíra, com direção de Cacá Carvalho, e a dissertação foi publicada em livro, em 2005.
Além da tese, que será defendida em março de 2008, na presença da orientadora Sonia Rangel – atriz, diretora e doutora em artes cênicas carioca, mas radicada na Bahia – o processo incluiu a montagem de um 12º espetáculo, que serviu de experimento cênico da pesquisa. “Em carne e osso” reúne cinco criadores: Cláudio Barros, Olinda Charone, Oriana Bitar e Patrícia Gondim, além da própria Wlad. O espetáculo conta a história de um garoto obeso que é vítima de violência sexual praticada pelo pai. O tema denso fica ainda mais chocante ao ser narrado num minúsculo espaço, para um público de apenas oito espectadores convidados. A obra foi apresentada durante três meses no Teatro Porão Puta Merda, o mais novo espaço cênico independente da artista, e agora mais pessoal do que nunca, já que foi construído no porão da sua própria casa.
Em sua mais recente criação, Wlad consolida uma síntese dos princípios que desenvolveu durante a carreira. Entre estes, destaque para uma recorrente abordagem da própria arte do teatro como universo temático (metalinguagem), a forte ênfase no depoimento pessoal dos criadores da cena, e a utilização da forma espacial unitária, aquela que suprime a divisão de palco e platéia e na qual ela defende uma espécie de dissolução da figura do ator. “Hoje acredito num teatro onde tanto atores quanto espectadores sejam os atuantes”, resume. O intimismo foi levado ao extremo na montagem, que propõe até o contato físico entre ator e espectador. Além disso, a pesquisa ampliou seu objeto quando, após cada apresentação, os espectadores participavam de um debate, que foram gravados e depois transcritos, e hoje reúnem a íntegra das impressões e opiniões daquelas 160 pessoas que viveram o experimento.
A idéia é que a tese, depois de concluída, também seja publicada. Até porque Wlad Lima não consegue ficar parada. Antes mesmo de encerrar esse trabalho, já faz planos para um pós-doutoramento, que deverá lançar um olhar sobre a In Bust Companhia de Teatro com Bonecos, investigando a atuação desses artistas paraenses enquanto estrategistas de sua carreira profissional. Será que nascerá daí o décimo terceiro espetáculo criado por Wlad Lima para um porão? É possível que sim. Se não for, porém, outra motivação qualquer deverá surgir em breve na alma dessa inquieta encenadora. Por isso, fiquemos atentos. E nunca é demais lembrar: sempre que decidirmos adentrar essas verdadeiras cavernas da criação sejamos cautelosos ao dar o primeiro passo; será no coração da própria artista que estaremos pisando – ou seria melhor dizer em nossos próprios corações?
*Alberto Silva Neto é jornalista, ator e diretor teatral.
|
|
|
|