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Wlad Lima

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Estou em trânsito sempre. Viajando nas linhas da rede digital; escalando as montanhas da criação artística; investigando as profundezas de uma cena; ou remexendo as bagagens de meu ser.

DRAMATURGIA PESSOAL DE UMA ATRIZ

Uma História de Vida nos palcos de Belém.

Em Tempo de Internet, o sublime desenho

  

 

 

 

TEORIA DA CENA - ETDUFPA - CENOGRAFIA 2 ANO

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CRONOGRAMA DE TRABALHO PARA TEORIA DA CENA - CENOGRAFIA / 2 ANO

 

PLANO TEMPORAL: CH 45 h. / 17 SEMANAS / 15 ENCONTROS / 02 FERIADOS

Conteúdos e Atividades

Encontro: Conhecimento da disciplina

* Apresentação dos participantes da disciplina (professora e alunos).

* Apresentação do programa da disciplina.

   Espaço para esclarecimentos.

* Identificação e reconhecimento do elenco de práticos e suas funções artísticas nos        processos de criação das montagens que serão estudadas (06).

* Exposição dos trabalhos acadêmicos a serem realizados e suas respectivas propostas de procedimentos.

     - Construção do Diário de Bordo da disciplina.

     - Coleta e organização dos Registros de Processos de Criação.

     - Construção dos Ensaios.

     - Publicação dos Ensaios (ON-LINE e OFF-LINE).

   Espaço para esclarecimentos.

* Exposição dos referenciais a serem estudados (referências e fontes de pesquisas).

* Solicitar a escritura do texto “Meu Porto de Partida” (abertura do Diário de Bordo)

  Espaço para reflexão. (mote: o ato de conversar sobre teatro).

Encontro: Partilhar os “primeiros passos”.

* Leitura coletiva do texto “A Porta Aberta” de Peter Brook.

* Leitura dos textos “Meu Porto de Partida” (abertura dos Diários de Bordo)

Espaço para reflexão.

* Exposição do exercício “o espectador imaginário”.

* Leitura de um dos textos produzidos em turmas anteriores ( autor: Renato Torres)

Espaço para esclarecimentos partilhando com o coletivo um dos trabalhos das turmas anteriores

* Prática de escritura.

* Leitura livre dos escritos.

Espaço para reflexão.

Encontro: A Essência do Teatro segundo Ortega y Gasset (1883- 1955).

* Exposição do texto “A Idéia do Teatro” (uso de multimídia).

* Formulação de questões.

Espaço para esclarecimentos.

* Prática de escritura em grupos organizados por espetáculos (otimização dos trabalhos: decupagem das práticas cênicas de 2008, através dos registros de processo, montagem e apresentações dos espetáculos (análise, roteiro para a produção textual e customização de imagens).

* Leitura livre dos procedimentos de escrita.

 Espaço para reflexão.

Encontro: DIA MUNDIAL DO TEATRO

Participação da turma no 1º ENCONTRO DE BLOGUEIROS DO TEATRO DO ESTADO DO PARÁ realizado pelo projeto de extensão Observatório do Teatro na Web da ETDUFPA.

Encontro: A Cena Realista de André Antoine (1859 – 1943).

Exposição do texto-colagem da professora+ (uso de multimídia).

* Formulação de questões.

Espaço para esclarecimentos.

* Prática de escritura em grupos, organizados por espetáculos.

* Leitura livre dos procedimentos de escrita.

 Espaço para reflexão.

6º Encontro: A Cena Simbolista de Edward Gordon Crag (1872-1966)  e Adolphe Appia (1862-1928).

Exposição do texto-colagem da professora+ (uso de multimídia).

* Formulação de questões.

Espaço para esclarecimentos.

* Prática de escritura em grupos, organizados por espetáculos.

* Leitura livre dos procedimentos de escrita.

 Espaço para reflexão.

Encontro: A Cena Épica de Bertold Brecht (1898 – 1956).

Exposição de texto-colagem da professora baseado nos Diários de Trabalho de BB.+ (uso de multimídia).

* Formulação de questões.

Espaço para esclarecimentos.

* Prática de escritura em grupos, organizados por espetáculos.

* Leitura livre dos procedimentos de escrita.

 Espaço para reflexão.  

8º Encontro: A Cena Sagrada de Antonin Artaud (1896-1948).

Exposição do texto-colagem da professora baseado no Teatro e seu Duplo de AA. + (uso de multimídia).

* Formulação de questões.

Espaço para esclarecimentos.

* Prática de escritura em grupos, organizados por espetáculos.

* Leitura livre dos procedimentos de escrita.

 Espaço para reflexão.

FERIADO

Encontro: A Cena Política de Erwin Piscator (1893 -1966) e Tadeusz Kantor (1915 – 1990).

Exposição de texto-colagem da professora baseado no Teatro da Morte de TK. + (uso de multimídia).

* Formulação de questões.

Espaço para esclarecimentos.

* Prática de escritura em grupos, organizados por espetáculos.

* Leitura livre dos procedimentos de escrita.

 Espaço para reflexão.

10º Encontro: A Fórmula Espacial Unitária de Jerzy Grotowski (1933 – 1999).

Exposição do texto “A Possibilidade do Teatro – Materiais de trabalho do Teatro das 13 Filas Opole” (uso de multimídia).

* Formulação de questões.

Espaço para esclarecimentos.

* Prática de escritura em grupos, organizados por espetáculos.

* Leitura livre dos procedimentos de escrita.

 Espaço para reflexão.

FERIADO

11º Encontro: Ensaio Geral dos Seminários com a presença dos coordenadores de cenografia.

12º Encontro: Seminário “Praticantes da cena em atos e reflexos”. Evento com a participação dos cenógrafos das montagens analisadas.

13º Encontro: Preparação do material para publicação digital (designer gráfico, revisão dos textos e complementos).

14º Encontro: Lançamento da publicação / análise da recepção (Comemoração com a equipe diretores, atores e convidados).

15º Encontro: Entrega dos Diários de Bordo e Avaliação geral da disciplina.

O que mais ocorrer.

 

CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO DA DISCIPLINA:

 

Presença em sala de aula. Leitura do material bibliográfico. Participação nos debates das aulas expositivas. Empenho na coleta dos registros das Práticas de Montagens realizadas em 2007. Organização dos conteúdos a serem coletados em depoimento dos criadores de cena. Trabalho analítico atualizado. Periodicidade nas construções textuais. Organização e criatividade nas apresentações dos trabalhos.  Presença efetiva nos trabalhos em grupo. Autoria na construção dos ensaios – O Espectador Imaginário. Empenho e criatividade na defesa e publicação dos ensaios. Precisão na construção e apresentação do Diário de Bordo da disciplina.

 

A avaliação requer compreensão de todo o processo de ensino/aprendizagem da disciplina. Por isso, é imprescindível a aplicação da “avaliação continuada”, cujo princípio de verificação tanto da apreensão quanto da criação de conteúdos se dá, de forma processual e não no formato do provado (utilização de provas).

 

NOVO BLOG SOBRE A IN BUST

MINHA NOVA PESQUISA EM ARTE
 
PROJETO: BONECOS ? (que) IN BUST !
 
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Para dar vontade de ver posto no álbum fotos do novo espetáculo da In Bust:  "O conto que vim contar".
 
 
 
 
 
 
 

Conheça Tyka sem um ponto - O Blog de Tyara de La Rocque.

Eu não poderia deixar de falar desse espaço que abre a fala para uma comunidade ilhada.

O glamour da zona decadente

As disparidades entre o ontem e o hoje na zona do meretrício

1970. O então governador Alacid Nunes desce a rua Riachuelo em direção ao palácio Antônio Lemos. Em uma das esquinas, a prostituta, amanhecida e ainda meio bêbada, levanta a saia, expõe a mercadoria e convida:
- Ei, governador! Vem chupar essa buceta aqui, vem!
O incidente foi a gota d`água em um copo que há tempos estava prestes a transbordar. Ofendido e constrangido, o governador ordena o fechamento da zona. A partir desse fato a ditadura passou a intervir na área do meretrício, manteve cerca de 2.800 prostitutas confinadas dentro de suas estreitas ruas. Militares passam a vigiar dia e noite todo o perímetro e as profissionais do sexo ficam em estado de sítio, isoladas do resto da cidade. A situação perdura por três anos, até que unidas, conseguem uma ordem judicial que lhes devolvem o direito de ir e vir na cidade. Porém a zona nunca mais foi a mesma.
Com a liberação sexual nos anos 70, onde o sexo já começa a não ser considerado mais um tabu, especialmente pelas mulheres, a zona passa a existir hoje para um homem mais carente. As grandes damas, amantes de homens que detinham um alto poder aquisitivo já não mais existem. Assim como a vida boêmia nos glamourosos cabarets, agora, permanecem apenas na lembrança.
Porém, essa decadência traz também a organização. O Grupo de Mulheres Prostitutas da Área Central (Gempac) surge nos anos 80 para trazer informações e auxílio a trabalhadoras do sexo. Com o advento da AIDS, e a “popularização” das DSTs, puta vira sinônimo de doença. No coração da zona, a organização instala-se no casarão onde funcionava o Rola Drink’s, cabaret popular, conhecido na área pelo barulho, brigas e visitas da polícia. Neste local hoje há distribuição gratuita de preservativos, orientação psicológica e cursos são oferecidos às prostitutas, com o objetivo de prepará-las para as novas exigências do “mercado”.
Quem anda a noite pelo bairro da Campina não mais sente o cheiro de laquê e perfumes franceses. A região hoje exala um odor forte de mijo, é referencial de tráfico de drogas e ruas que exibem um cenário de mendigos, pivetes, bares popularizados e prostitutas de todas as idades que vendem seus corpos por até R$ 5,00. A decadência econômico-social se instala no centro da cidade. Mas quem ali viveu nos anos 50 e 60 não pode e não quer esquecer.

O Glamour

A luz vermelha ocupa a escuridão da noite, música alta exigindo mais da voz de quem tenta atenção, um espelho de porte considerável exaltando a vaidade que ocupa aquele quartinho romântico, maior testemunha do pecado constante. Na frente desse espelho ela se arruma, se maquia e se perfuma, para todos e para qualquer um. Esse era o camarim onde as estrelas da vida real se preparavam para a longa noite que as esperava.
Entre o desejo e a necessidade, centenas de mulheres tomavam as rédeas de sua própria vida e em um dos períodos mais machistas da história do Pará, provavam sua força e transformavam grandes heróis do estado em meninos ingênuos perdidos entre a excitação e o poder.
Belém, século XIX, a zona cresce junto com a população da cidade e vive seu apogeu. Quando não se tinha nada para fazer e muito dinheiro para gastar, o sexo se tornava moeda de troca e quem o dominava e sabia fazer uso dele, lucrava. Inicia-se assim o comercio de prazeres, onde tudo pode acontecer e tem seu preço. Casarões de arquitetura imponente recebiam cedo da noite os primeiros rapazes em busca do proibido e definiam o bairro da Campina com uma estrutura ao mesmo tempo pomposa e comercial.
Sendo a única atração noturna da cidade, a zona não se resumia somente a esse tipo de relação de mercado, mas sim a espetáculos regados à música, dança e outros tipos de diversão, o que levava diversos casais a aproveitarem juntos a noite na zona. Por outro lado, esse tipo de publico exigia um comportamento mais intelectualizado por parte das anfitriãs, coisa que os próprios estrangeiros também procuravam, consumiam e patrocinavam. A procura destes era tão grande que em Belém, diversas casas mais sofisticadas eram reservadas a eles, fato este que por si só cobrava dessas meninas o mínimo de conhecimento sobre outros idiomas, isso é, quando elas mesmas não eram importadas.
A Campina se tornava uma torre de babel de luxo e exalava perfumes diversos. Com um tom surreal no coração de uma cidade provinciana mas promissora, as mulheres da zona enriqueciam, roubavam a cena e deixavam sua marca na história.
Quem nasceu primeiro: A zona ou a Igreja?
“Onde começa uma cidade, começa uma zona!” afirma Lourdes Barreto, prostituta das antigas que se tornou referência devido as tentativas de revitalização da zona. A informação de que a prostituição é a profissão feminina mais antiga do mundo responde a pergunta acima, porém, a referida profissão encontrou em diversas religiões seu arqui-rival.
Nascida de uma necessidade social, a prostituição foi viabilizada pelo mercantilismo que possibilitava grandes acúmulos de riqueza de um lado e absoluta pobreza de outro. Homens pagavam mulheres pelo sexo por diferentes motivos, geralmente ligados à sua classe. Os mais pobres simplesmente não tinham dinheiro para manter uma esposa e constituir família, os da classe média trabalhadora, muitas vezes ocupados demais em suas funções, preferiam pagar pelo sexo à arranjar uma esposa e constituir família. Já os mais ricos, gostavam de desfrutar de relações com diferentes mulheres sem precisar construir um dispendioso harém particular.Em qualquer das situações, era sempre economicamente vantajoso recorrer aos serviços de uma prostituta.
Mas não se engane, essas profissionais sempre foram vítimas de perseguição. Em todo os lugares e em todas as épocas. Discriminadas pelo senso de moral colocado pelas religiões, as prostitutas já foram submetidas ás mais diversas exigências, que vão desde cadastros especiais ao uso de roupas que as diferenciassem das “demais mulheres honestas”.
No Brasil, o preconceito baseia-se nas doutrinas da Igreja Católica, pois a prostituição ameaça a monogamia do casamento (sacramento que dá origem a célula mais importante da religião: a família), prima pelo prazer e corrompe o ato sagrado da reprodução. Contudo, as necessidades humanas permitem que a “indústria da culpa”, que movimenta a Igreja desde sempre, continue funcionando a pleno vapor, afinal, o que teríamos para arrepender e confessar se não pecássemos em primeiro lugar?
A igreja do Rosário dos Homens Pretos foi construída dentro da, já funcional, primeira zona de Belém. E essa paróquia foi responsável por um combate ferrenho às funções da zona, ora por acolhimento dos grupos de senhoras, que distribuíam cestas básicas e aconselhavam as “pobres pecadoras” do local, ora por pura repressão, incorporando e demolindo diversos bordéis, que alegavam terem sido construídos em terreno da Igreja.
Se na batalha Igreja Católica VS. Zona da Riachuelo, a Igreja está rindo por último; na guerra travada pela mesma à prostituição, ainda apanha de lavada. Diariamente, em todo o mundo, moças chegam, por diversos motivos, ás zonas de meretrício. E essa realidade não está perto de mudar, pois, em nossa sociedade ainda mercantilista, onde se iniciar uma cidade, começará também uma zona.

A zona nos palcos

O Grupo Cuíra de Teatro, cuja sede fica no coração da zona, criou o espetáculo Laquê. A peça retrata no texto a história real de uma garota de programa que se apaixonou por um marinheiro e, depois de descobrir que ele se casaria com outra, ateou fogo em si mesma e morreu. A encenação se passa na década de 50, época áurea da zona no meretrício, e é ambientada no carnaval - com direito a marchinhas como trilha sonora, cantadas pelos atores. Wlad Lima e Cláudio Barros, os diretores do espetáculo, incluíram moradores da zona e garotas de programa no elenco, como uma forma de quebrar preconceitos e auxiliar na inclusão social. O espetáculo investe também na tentativa de humanizar a prostituição. "Prostituta não é só corpo não. Prostituta também é gente, tem alma, se apaixona. Prostituta assiste à novela e fica sonhando com a vida que as prostitutas têm na televisão", diz uma personagem durante a peça. Segundo Cláudio Barros, o objetivo do Grupo Cuíra é promover a "desmarginalização" da zona e aproximar o público de classe média da realidade do lugar, já que "inegavelmente, a zona do meretrício é não só área de prostituição como faz parte do patrimônio histórico-cultural de Belém".
Atriz há 30 anos, diretora de teatro e dança, professora de teatro da UFPA, Wlad Lima conta um pouco da experiência com o espetáculo Laquê, sucesso de público e crítica em Belém.

Tyara: Sabemos que no espetáculo Laquê existe também a atuação de prostitutas da zona do meretrício. Como foi a experiência de trabalhar elas?

Wlad: Foi muito interessante. Fizemos num primeiro momento um teatro laboratório com elas para mais tarde realizarmos uma oficina de um mês para integrar todo o elenco. Elas receberam ainda um cuidado maior através dos apoios conseguidos pelo grupo, como odontológico, limpeza de pele, corte de cabelo, ginecológico entre outros. As prostitutas que atuam na peça são as mais maduras, são mães e até avós. Elas fazem programas durante o dia e a noite estão livres para poderem trabalhar no espetáculo. Foi um trabalho sensacional, o aprendizado não foi apenas para elas e sim para os dois lados.

Tyara: Mas como surgiu a idéia de incluir no elenco as profissionais do sexo?

Wlad: O nosso objetivo é também o trabalho social pela arte e esse engajamento, aplicado à zona do meretrício veio do convívio com a área vizinha. A principal estratégia foi mesclar o elenco para não se saber quem é quem, até por que existem casos ali em que os familiares desconhecem que a prostituição é uma realidade na vida de sua parenta. Por isso tivemos todo o cuidado com a exposição dessas mulheres. Ali elas são atrizes.

Tyara: Quanto tempo de preparação vocês tiveram para o espetáculo estar pronto?

Wlad: Cinco meses de dedicação. Começamos em outubro de 2006 e Laquê estreou em Abril deste ano.

Tyara: Hoje a zona não respira mais o glamour de antigamente. É um perímetro discriminado, marginalizado e de certa forma esquecido. Com a abertura do espaço Cuíra, localizado no coração da zona do meretrício, podemos dizer que houve uma tentativa de resgate da zona?
Existe no bairro da Campina muitos espaços culturais e nos últimos tempos alguns artistas estão comprando casas e transformando em locais que abraçam a arte, como o do Mariano Klautau, o porão “Puta merda” na minha casa, o fotoativa do Miguel Chikaoka, Basa entre outros. O grande barato do espaço Cuíra, além da maior acessibilidade econômica ao público, é fazer as pessoas refletirem sobre o lugar. Desenvolver um trabalho social por meio da arte e através dos temas apresentados nos espetáculos fomentar uma reflexão.

Tyara: Você pretende dar continuidade em próximos trabalhos com as prostitutas?

Wlad: Com certeza, por que não continuar? Algumas delas já declararam que gostaram muito da experiência com o teatro e pretendem seguir a carreira de atriz.

Produção dos textos em parceria com Fernanda Martins, Márcio Moreira, Diva Nassar e Camila Barbalho, todos acadêmicos de jornalismo.

 

http://wwwtyaradelarocque.blogspot.com/

Matéria de Alberto Silva Neto sobre Teatro de Porão publicada em O Liberal é postada aqui na íntegra

O teatro ao alcance do tato

Alberto Silva Neto*

Especial para o Magazine

 

Verdade seja dita: o nome de Wlad Lima é referência no teatro paraense. Ela, certamente, vai odiar essa afirmação. Indiferente a elogios de circunstância e holofotes ocasionais, essa atriz, diretora e professora paraense de 46 anos, prefere estar focada nas pesquisas que realiza sobre a arte abraçada para toda a vida. Agora, como resultado dessa investigação, uma parte importante de sua produção – os últimos 18 anos, mais precisamente – ganha um estudo em forma de tese de doutoramento, pelas mãos da própria artista.  “A investigação e análise de minhas próprias obras com o objetivo de revelar a poética inscrita nesses corpos cênicos (...) foi algo que me exigiu uma espécie de sobrevôo na criação. Não com o intuito de ver de cima, de fora, mas sim com a autonomia de poder reinventar a mim mesma, sempre. Reinvenção de minha imanência (vida) e de minha obra”, escreve ela na tese. Engana-se, porém, quem acha que aqui está se falando ao próprio umbigo, quando a abordagem daquilo que é pessoal restringe o alcance do trabalho; ao contrário, trata-se de uma investigação fundamentada em fatos que lançam luzes sobre a natureza e o sentido do fazer teatral em Belém, nas últimas duas décadas.

O estudo começa com a definição de um espaço para essa prática teatral, que recaiu sobre um traço herdado da arquitetura portuguesa – os porões. A tese afirma que a natureza desses espaços tão peculiares constitui uma estética própria e uma prática teatral específica de Belém do Pará. “São verdadeiras poéticas cênicas encravadas em porões”, define Wlad. “Nos últimos 18 anos, foram montados 50 espetáculos em porões da cidade”, completa, revelando dados surpreendentes que expressam o volume significativo dessa produção. Desses espetáculos, onze foram dirigidos por ela, em quatro porões diferentes, e são eles que compõem o objeto da investigação.

Tudo começou em 1989, quando Wlad assistiu ao espetáculo “Josefina, a cantora”, uma versão cênica para o conto de Franz Kafka criada e interpretada pelo francês François Kahn. A montagem foi apresentada no porão do Teatro da Paz, coisa até então inédita na cidade. Quando o espetáculo acabou, a espectadora Wlad Lima estava estupefata. “Naquele momento senti que queria fazer teatro em porões”, lembra. E o primeiro espetáculo dirigido por ela em um espaço semelhante veio já no ano seguinte. O porão da casa que até hoje sedia a Universidade Popular (Unipop), entidade para a qual coordenava atividades culturais, virou cenário para “Dama da Noite”, do grupo Cuíra do Pará, com versão de Kil Abreu para o conto de Caio Fernando Abreu. Dois anos depois, em 1992, montou uma versão da peça “Hamlet”, de Shakespeare, já com o Grupo de Teatro da Unipop. Em ambas as montagens, a ação cênica envolvia atores e espectadores em um mesmo espaço. Nascia ali uma das características mais marcantes da encenadora, que desde então já bebia na fonte inesgotável do pensamento de Jerzy Grotowski, diretor polonês do Século 20 que entrou para a história principalmente ao eliminar a distinção entre palco e platéia, e defender que a essência do teatro está no contato humano entre ator e espectador.

Escola - O segundo e terceiro espaços surgiram quando a Escola de Teatro e Dança da UFPA, da qual Wlad já era professora, se mudou para uma casa com porões. Ali Wlad realizou cinco espetáculos, sempre com alunos-atores. Foram eles “Mariano”, em 1996, com texto do paraense Paulo Faria; “Do que brincam os meninos que serão poetas?”, em 1997, inspirado na obra de Federico Garcia Lorca; “Maravilhosa Orlando”, em 1999, com texto de Antar Rohit; “Circo Vitória”, em 2001, outra vez de Paulo Faria; e “A-mor-te-mor”, em 2002, a partir do romance “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez, e criado em parceria com a diretora e professora Karine Jansen. Os quatro últimos foram montados no porão transformado em Teatro Experimental Cláudio Barradas, mas o primeiro é fruto de uma história curiosa e reveladora dos caminhos cênicos percorridos por ela. Para realizar a montagem de “Mariano”, recusou o teatro experimental para “inventar” outro, bem mais acanhado, mas com o intimismo e o despojamento que queria. O trabalho foi tão marcante, que depois da temporada o porãozinho passou a ser chamado de Espaço Mariano, e abrigou outras montagens.

Entrecortando essa produção ligada às funções que exercia naquelas instituições, Wlad já começava uma nova fase de criação, agora em espaços independentes. O primeiro foi o Teatro Bufo, considerado o primeiro teatro de bolso da cidade. Administrado pela Dramática Companhia, fundada por ela, o espaço abrigou quatro de suas encenações. As três primeiras foram realizadas no mesmo ano, em 2001: “Duas tábuas e uma paixão”, colagem na qual fazia uma declaração de amor ao teatro, “Como um beija-flor a dois metros do chão”, sobre vida e obra de Arthur Bispo do Rosário, e “Devagarinho... Eu deixo”, a partir de obra do dramaturgo Elcione Araújo, e que inaugurava a Escola de Bufões, criada para formar novos atores. A fase do Espaço Bufo se fecha em 2002, com a montagem de “Água Ar Dente”, a partir da peça “John e Joe”, da dramaturga húngara Agotha Kristof, pelo grupo Cuíra do Pará.

 

 

 Uma artista que se revela em carne e osso

 

A tese de doutoramento “O teatro ao alcance do tato – Uma poética encravada nos porões da cidade de Belém do Pará” consumiu três anos de dedicação, e é realizada pela Universidade Federal da Bahia. A oportunidade surgiu logo depois que Wlad concluiu o mestrado, juntamente com outros 16 professores da Escola de Teatro e Dança da UFPA, a partir de convênio entre as duas universidades. O tema foi a Dramaturgia Pessoal do Ator, investigada durante o processo de criação do espetáculo “Hamlet – Um Extrato de Nós”, montado em 2001 pelo Grupo Cuíra, com direção de Cacá Carvalho, e a dissertação foi publicada em livro, em 2005.

Além da tese, que será defendida em março de 2008, na presença da orientadora Sonia Rangel – atriz, diretora e doutora em artes cênicas carioca, mas radicada na Bahia – o processo incluiu a montagem de um 12º espetáculo, que serviu de experimento cênico da pesquisa. “Em carne e osso” reúne cinco criadores: Cláudio Barros, Olinda Charone, Oriana Bitar e Patrícia Gondim, além da própria Wlad. O espetáculo conta a história de um garoto obeso que é vítima de violência sexual praticada pelo pai. O tema denso fica ainda mais chocante ao ser narrado num minúsculo espaço, para um público de apenas oito espectadores convidados. A obra foi apresentada durante três meses no Teatro Porão Puta Merda, o mais novo espaço cênico independente da artista, e agora mais pessoal do que nunca, já que foi construído no porão da sua própria casa.

Em sua mais recente criação, Wlad consolida uma síntese dos princípios que desenvolveu durante a carreira. Entre estes, destaque para uma recorrente abordagem da própria arte do teatro como universo temático (metalinguagem), a forte ênfase no depoimento pessoal dos criadores da cena, e a utilização da forma espacial unitária, aquela que suprime a divisão de palco e platéia e na qual ela defende uma espécie de dissolução da figura do ator. “Hoje acredito num teatro onde tanto atores quanto espectadores sejam os atuantes”, resume. O intimismo foi levado ao extremo na montagem, que propõe até o contato físico entre ator e espectador. Além disso, a pesquisa ampliou seu objeto quando, após cada apresentação, os espectadores participavam de um debate, que foram gravados e depois transcritos, e hoje reúnem a íntegra das impressões e opiniões daquelas 160 pessoas que viveram o experimento.

A idéia é que a tese, depois de concluída, também seja publicada. Até porque Wlad Lima não consegue ficar parada. Antes mesmo de encerrar esse trabalho, já faz planos para um pós-doutoramento, que deverá lançar um olhar sobre a In Bust Companhia de Teatro com Bonecos, investigando a atuação desses artistas paraenses enquanto estrategistas de sua carreira profissional. Será que nascerá daí o décimo terceiro espetáculo criado por Wlad Lima para um porão? É possível que sim. Se não for, porém, outra motivação qualquer deverá surgir em breve na alma dessa inquieta encenadora. Por isso, fiquemos atentos. E nunca é demais lembrar: sempre que decidirmos adentrar essas verdadeiras cavernas da criação sejamos cautelosos ao dar o primeiro passo; será no coração da própria artista que estaremos pisando – ou seria melhor dizer em nossos próprios corações?

 

*Alberto Silva Neto é jornalista, ator e diretor teatral.

 

Carta enviada por "gente de teatro" de Goiânia

Recebi postada nos comentários de meu blog http://teatronanet.blogspot.com/  uma carta que revela a revolta, justificada devido a não seleção da Cia., porém injusta porque faz acusações à comissão de seleção dos grupos locais (goiânia), do qual fiz parte (como está postado logo abaixo), como se todos nós fossemos mamulengos que dependem de manipuladores. Creio que nem os meus queridos bonecos são tão manipuláveis assim; creio que há neles, vida própria. 
Este país é grande, mas não tanto, para que "gente de teatro" não conheça de fato as condições de trabalho, uns dos outros; suas lutas, conquistas e perdas. Pouco conheço do trabalho da Cia de Teatro Novo Ato, apenas através de um vídeo que com toda certeza, pouco diz de sua produção, mas que estava como o "meio de recepção" do trabalho disponibilizado para nós, da comissão julgadora. Esta forma que pode não ser a melhor, foi aceita por cada um dos inscritos naquela seleção . Assim, do fundo do coração, espero que "meus iguais de teatro" daquela cidade, assumam que de fato também nada sabem do trabalho artístico que eu desenvolvo em minha cidade, Belém do Pará, bem como de meus outros dois companheiros de tão dolorosa empreitada .Percebi que vocês não me conhecem como a mulher de teatro que sou. Sei que não sou global e sei que não preciso sentir culpa por querer e lutar para ser doutora de meu ofício. Sem mais delongas, dou aos artistas goianos o direito da palavra, publicando aqui sua cartinha.
 
 

CARTA AOS JURADOS E DEMAIS
Comissão julgadora vocês fizeram um trabalho construído com base em clichês uma espécie de franquia do que uma cúpula define como teatro moderno um lugar comum muito repetitivo estereotipado convertido em forma fixa de um manual de como analisar espetáculos creio que seja uma doença do nosso século extremamente caricatural ou seja uma representação burlesca de um tipo muito comum no Brasil dependente com opiniões frágeis em seu arcabouço dramático apresentando pouca variação entre suas opiniões que compõem o julgamento.É muito fácil julgar não é mesmo? Por isso estou usando as palavras que usaram nas suas considerações para fazer minhas considerações .Enfim vocês não tem relação com o teatro de fato e nem se encaixam dentro da sua programação artística e humana portanto não foram selecionados .
O espetáculo Crônicas de Motel foi extremamente elogiado pelo público e temos uma luta incessante contra os clichês esteriotipos e caricaturas diferente da opinião de vocês nas considerações .Vocês me lembram um professor universitário que tive pedante e cheio de preconceito.Geralmente os artistas genuínos tem problemas com esse pessoal muito acadêmico e burocrático.Continuando com o Crônicas escrito por um grande dramaturgo Goiano e feito por atores profissionais que apresentam muitas variações entre as interpretações das três cenas que compõem o espetáculo. Portanto sugiro que revisitem seus julgamentos para não cometerem certos equívocos irreparáveis .
A organização do festival passou a ser burguesa ,elitista e restritiva .Instalam-se espetáculos contemporâneas .O que e contemporâneo, ruptura? E um teatro para surdo mudo para muçulmano ver? –Não entendi – o outro responde não se preocupe teatro não e para entender,feito para 20 pessoas. Uma xerox da xerox . Ou um teatro subvencionado pelas Leis do Estado ou Entidades particulares que recebem não sei quantos mil que não surtem nenhum efeito perante a comunidade cumprem a programação e se encerram .Vivem de Lei em Lei ò entendidos .A Novo Ato consegue viajar mais de 30 municípios do interior do Estado apresentando-se para um público de aproximadamente 40 mil pessoas com mais de 250 apresentações sem a ajuda da UNESCO (infelizmente) num trabalho que o Estado deveria patrocinar e incentivar .Fazemos um trabalho social pioneiro de altíssima qualidade que consegui uma resposta positiva a cada dia mantendo um público não acostumado a essa arte a apreciá-la como integrantes desse fenômeno. Não estamos dentro da temática que belo conversa fiada no Brasil existe o pacto da mediocridade e dos canalhas de plantão infelizmente .Imagino vocês de óculos emitindo xerox de opiniões consultando o manual para críticos e a organizadora do festival babando em cima de vocês suspirando pela alta qualidade dos jurados de fora .Cidade colonizada! É por isso que o nosso grande dramaturgo Nelson Rodrigues colocou o critico como fugido do SAM em uma de suas pecas (Viúva Porém Honesta).
O Crônicas de Motel esta dentro da temática tradição e ruptura mais tradicional do que encenar um autor goiano como Hugo Zorzetti dessa forma ? (pra mim esse tema abrange de mamando a caducando) mas os intelectuais de porcelana não enxergam o evidente , com gestos extremamente teatrais e sofisticados não é qualquer comédia é algo no definido a mudança de voz de personagens de interpretações nada conta? E o mais inverossímil é que justamente essas qualidades foram nossa condenação perante seus olhos que viram exatamente o contrário .Acho que vocês viram o vídeo errado .
Ó entendidos vem acompanhar nossa rotina diária e exaustiva de trabalho levanta o traseiro da cadeira .O critico tem que acompanhar os ensaios saber das condições extremamente adversas que passamos sem subsídio com boicotes de todos os lados .Nos somos um milagre somos a paródia do para olimpíadas que traz recorde de medalhas para o Brasil ,mas os intelectuais não enxergam o evidente volto a repetir.Estamos extremamente bestas com a falta de discernimento geral .Poderia desejar que tenham uma péssima sorte mas tenho um defeito gravíssimo que e a bondade portanto desejo –lhes uma boa sorte e convido vocês a assistirmos juntos novamente o vídeo e discutir a respeito de cada parte .Isso é um falso festival (Festival vem de festa ) .Não fazemos parte da patota nem temos vocação para puxa saco. É duro dizer tudo isso mas se trata de dados . Que belo incentivo vocês nos dão , a vontade que tive foi mudar de cidade de Estado de País não fazemos teatro por hobby, teatro de escritório, almofadinha, depois do expediente em três vezes por semana .Somos profissionais .Sabem o que e fazer teatro num estado pobre atrasado e abandonado como este? Nosso produtor foi pegar o resultado e a cúpula estava disposta a impressão que ele teve foi a de que era um festival de fachada arranjado combinado e veio-lhe a seguinte conclusão de que a organização prescindia de vocês porque a orientação já estava dada por antecipação de quem se encaixa e quem não.Uma coisa de novela se gabando por ser tão acadêmico e restritivo cujo ápice e estertor era o teatro dança ou de autores consagrados essa foi sua impressão.

Atensiosamente, ------------------------------------------------
Marília Ribeiro (Cia de Teatro Novo Ato) Goiânia,29 de Setembro de 2007.

2 de Outubro de 2007 12:43

  

Goiânia em Cena 2007

Peguei um ITA no norte e fui participar da seleção local do "Goiânia em Cena - 2007". Esta função de meu ofício de ser "mulher de teatro" - compor a comissão julgadora é também cena - me fez reconhecer, na produção espetacular desta cidade, as semelhanças e as diferenças em relação a produção do norte do pais; a produção de minha cidade, Belém do Pará. Acredito que organizar e publicar um festival como esse, com produção local, nacional e internacional  é um meio contagioso de cartografar as "identidades cênicas" do palco-Brasil. 

Para quem quer saber um pouco de Wlad Lima.

 

Wlad Lima é atriz, cenógrafa e diretora de teatro. Professora e pesquisadora da ETDUFPA - Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará. É diretora artística dos seguintes grupos de teatro da cidade: Grupo Cuíra do Pará, com atuação na zona central do meretrício de Belém e da Dramática Companhia, na preparação dos atores em espetáculos-solos. É proprietária e administradora do Teatro Porão Puta Merda, seu atelier-residência no bairro da Campina, centro comercial de Belém. Foi consultora artística da Fundação Curro Velho, ligada ao Governo do Estado do Pará, de 1991 a 2006 e Coordenadora de Artes do Instituto Universidade Popular – UNIPOP- de 1996 a 2003.

Graduada em Ciências Sociais, mestre em Artes Cênicas pela Universidade da Bahia e atualmente, doutoranda pelo mesmo programa de pós-graduação desta Universidade. Autora do livro DRAMATURGIA PESSOAL DO ATOR, publicado em 2005, pelo Grupo Cuíra do Pará, onde disserta sobre o trabalho do ator e diretor Cacá Carvalho, no processo de montagem do espetáculo Hamlet: Um Extrato de Nós, com atores paraenses. Sua pesquisa de doutoramento, em fase de conclusão, estuda OTeatro ao alcance do tato: poéticas cênicas encravadas nos porões da cidade de Belém do Pará. Esta tese tem sua publicação prevista para 2008, com o título de TEATRO DE PORÃO.

Nesta categoria de espetáculos, sua produção é a seguinte: no Porão Cultural da Unipop, A Dama da Noite montagem do Grupo de Teatro Cuíra e Hamlet do Grupo de Teatro da UNIPOP; no Espaço Mariano da ETDUFPA, Mariano montagem do Curso de Formação de Ator; no Teatro Cláudio Barradas, também da ETDUFPA foram montados Do que brincam os meninos que serão poetas, Maravilhosa Orlando, Circo Vitória e A-MOR-TE-MOR, todos realizados pelo Curso de Formação de Ator da ETDUFPA; no Teatro Bufo, Duas Tábuas e Uma Paixão e Um Beija-flor a dois metros do chão, montagens da Dramática Companhia, Água Ar Dente do Grupo de Teatro Cuíra e Devagarinho eu deixo, montagem da Escola de Bufões. Em todos esses processos, Wlad Lima esteve presente na função de encenadora, desde 1990 até 2002, num trabalho colaborativo com outros diretores e criadores de cena. Mais recentemente, em 2007, dirigiu os seguintes espetáculos: Em Carne e Osso, no Teatro Porão Puta Merda - onde também atuou como atriz - e Laquê, no Espaço Cuíra – projeto cênico com as profissionais do sexo da zona central.

Na área das artes plásticas, Wlad Lima trabalha com desenho. Em 2001, primeiro foi premiada no VII Salão UNAMA de Pequenos Formatos com o Prêmio Aquisição. Segundo, participa da coletiva “Abril pra Arte”, organizada pela Associação dos Artistas Plásticos e o Museu de Artes de Belém - MABE na Galeria Municipal da Prefeitura da cidade. Terceiro, foi selecionada para a 10º Mostra Primeiros Passos do CCBEU – Pará. Quarto participa do Projeto “De Cara pra Noite”, envolvendo simultaneamente, uma mostra de artes plásticas e mostra de vídeos, realização da Dramática Companhia. Finalizando 2001, é selecionada para o 8º Salão de Artes da cidade de Itajaí, Santa Catarina. Em 2004 realiza uma exposição em “duo” com o artista plástico Walter Bandeira – um diálogo entre os seus desenhos e as acrílicas deste pintor - no Projeto “Prata da Casa”, XXXI Encontro de Artes de Belém, ENARTE, promoção UFPA.

Wlad Lima , setembro de 2007. 

COMO TUDO COMEÇOU

 

UMA RATAZANA DE PORÃO

 

 

Minha história, com porão, começa no ano de 1988. Este foi o primeiro ano das relações artísticas entre o ator e diretor paraense Cacá Carvalho e os criadores do Centro per la Sperimentazione e la Ricerca Teatrale de Pontedera, região da Toscana, Itália. Em função disso, dessas relações, os “italianos” começaram, não apenas a vir conhecer a região norte do Brasil - mais especificamente Belém, a cidade natal de Cacá – mas a trazer suas produções teatrais, resultados de suas experimentações e pesquisa de cena. Do Centro de Pontedera - hoje Fondazione de Pontedera de Teatro, dirigida por Roberto Bacci, o grande intercessor[1] de Cacá Carvalho[2] - o primeiro trabalho a chegar a Belém foi o espetáculo “K. l’ultima ora di Franz Kafka” com direção e interpretação do artista francês François Kahn, que eu assisti na sala de ensaio do Teatro Experimental do Pará Waldemar Henrique[3], no ano de 1989. Algum tempo depois – confesso que não sei dizer ao certo, se dias ou meses - além do espetáculo citado, François fez uma única apresentação de um segundo espetáculo baseado também em Kafka, precisamente, sobre o texto Josefina, a cantora (????). O lugar escolhido por ele para a “vivência” do trabalho, tão singular e inusitado para mim até aquele momento, foi o porão do Teatro da Paz. Um dos grandes palcos “à italiana” da região norte. Um porão mínimo, independente do fosso deste teatro, e nunca usado antes por ninguém para este fim, ou seja, a cena. Assisti ao espetáculo, extremamente fascinada pela idéia de utilização daquele espaço. Era um novo lugar para a cena; um espaço tão pequeno, mas que cabiam mil lugares; um lugar-estado de ser e de ver; uma toca de bicho, de mistérios e encantamentos. Eu estava completamente afetada, não só pelo ator, pela personagem, pela história de Kafka que me colocava entre os camundongos, os ratos, mas principalmente, me sentia enfeitiçada - definitivamente enfeitiçada, agora eu sei disso - pela idéia física-sensorial do porão. Posso brincar que foi amor à primeira vista. Que foi a minha primeira experiência de sufocamento pela e na cena. A primeira penetração no subterrâneo de um lugar, de uma arquitetura, da cidade. Nasce em mim a sensação do teatro em porão.

 

 

Sobre François Kahn, consulte o seguinte endereço:

 

http://www.ufmg.br/festival/37/artescenicas.htm.

 

 


[1] Conceito Deuziano desenvolvido no corpo da minha tese, intitulada TEATRO DE PORÃO.

[2] Esta e outras questões estão em discussão no meu livro intitulado Dramaturgia Pessoal do Ator resultado de meu mestrado, que disserta sobre o processo de criação do espetáculo Hamlet: um Estrato de Nós, dirigido por Cacá Carvalho e montado pelo Grupo Cuíra do Pará, com atores paraenses e suas dramaturgias pessoais.

[3] O Teatro Experimental do Pará Waldemar Henrique é o único teatro da cidade com a tipologia de palco de natureza experimental. Fundado em 1979, este teatro revolucionou a cena paraense, comprometendo todos os artistas-usuários com o seu caráter experimental. O autor de seu projeto cenotécnico foi Luiz Carlos Ripper.

 

DIGNIDADE EM CENA

Lourdes Barreto volta à ribalta hoje, em Laquê,

 para reviver no palco a difícil vida fácil dos anos 30, na Riachuelo

 

Os olhos de Lourdes Barreto brilham enquanto ela narra, orgulhosa, histórias de seus 48 anos de profissão, quase todos passados na zona do meretrício de Belém, onde ela agora incorpora essa experiência ao personagem que faz em uma peça de teatro que trata da história da prostituição em Belém com luxo, brilho e cultura. 'Na zona, vivi os dois lados da moeda. O tempo em que todas as mulheres trabalhavam com dignidade e determinação, e depois que tudo isso passou. A sociedade empobreceu e todos começaram a fazer sexo de qualquer forma', lembra.

Era agosto de 1959 quando Lourdes Barreto desembarcou na cidade onde viveria os melhores e piores momentos de uma vida de muita luta contra o preconceito. Os anos, de lá pra cá, se alternaram entre deleites e sofrimentos. Hoje, data exata em que começou a trabalhar no Cabaré Long Beach, há quase cinco décadas, Lourdes comemora uma nova descoberta: o teatro. Entre os atores e atrizes do Grupo Cuíra, ela está de volta ao palco com a peça Laquê, que entra novamente em cartaz a partir de hoje no Espaço Cuíra.

A montagem conta as nuances da zona desde a década de 1930. Diferentes de hoje, as ruas do centro inspirariam amor e luxúria nas décadas passadas. Aquele era o lado boêmio e mais animado de Belém, próximo à zona portuária onde os grandes cargueiros do Lloyd e de outras companhias transnacionais ancoravam trazendo mercadorias importadas e prontos para levar os produtos nativos, sobretudo a borracha. 'A zona era linda. O Pará, naquela época, passava pelo tempo da borracha e não faltava riqueza por aqui. Nossos clientes eram políticos e gente rica, da sociedade', conta Lourdes. E os clientes, segundo ela, não procuravam somente os prazeres sexuais. 'Muitos vinham para conquistar as moças e chamá-las para dançar', diz.

Para produção do espetáculo, atores e diretores fizeram uma pesquisa no bairro da Campina. 'Não havia nada escrito sobre aquela época. Os escritores, artistas e autoridades que vinham até o bairro não admitem isso em suas obras', explica Papi Nunes, atriz.

CABARÉ

O tema principal da peça é a história da prostituta Ângela, amiga de Lourdes. Ambas vieram juntas do Nordeste para o debut no Cabaré da Madame Mimi, na General Gurjão, rua do alto meretrício. 'Viajamos de avião, na primeira classe. Vivemos o luxo. Naquela época, puta comprava roupa de cetim importado e trocava de esmalte todos os dias', conta Lourdes. Ângela, segundo a amiga, era uma bela mulher. Seu defeito foi ter se apaixonado pelo rufião Pedro, homem que lhe explorava o amor e o dinheiro.

A pior frustração para aquelas mulheres era quando seus amantes se apaixonavam pelas moças da sociedade, infortúnio pelo qual Ângela passou. 'Quando ela soube do caso dele, todas nós fomos atrás da moça. Fomos presas por fazer arruaça no casamento de Pedro, mas, como muitos de nossos clientes eram delegados, logo depois estávamos livres', conta Lourdes. A prostituta apaixonada não agüentou o sofrimento. 'Todos os que assistem acabam chorando, vendo todo aquele glamour se desfazer', diz.

Na década de 1970, a zona sentiu a mão de ferro dos militares. Se, anos antes, os marinheiros buscavam aventuras pelo bairro, dessa vez a ditadura militar fechou as ruas e espalhou o medo entre as prostitutas. 'Foi uma guerra', conta Lourdes. 'Anos depois, soube que aquilo só aconteceu porque o governador Alacid Nunes havia passado de carro pela Riachuelo e, como era o baixo meretrício, uma prostituta mostrou os genitais para ele'. Com a operação, ninguém saía ou entrava na zona. Lourdes e suas colegas só contavam com a igreja e a ajuda mútua.

De um lado, a loucura e o desprezo. Do outro, o trabalho e o amor. 'É um trabalho como outro qualquer. Me trazia vida. Por outro lado, sei o que é deitar na cama com um homem sem gostar. Também conheço na pele o significado de abuso sexual', diz Lourdes. A zona, no entanto, dispunha de certa organização. Meretrizes de um cabaré não freqüentavam outra casa noturna. E, além da disputa entre cafetinas, segundo Lourdes, a prostituta que se deitasse com o amante de outra sofria violentas represálias. 'Quem fizesse isso corria o risco de levar uma navalhada no rosto', conta.

Enquanto a zona vivia seu auge, sexo era mais que um tabu social. O local precedeu a revolução sexual, mas dava ares do que estava por vir. 'Naquele tempo, era mais difícil fazer sexo. Nós também éramos educadoras sexuais. Muitos jovens, chamados de ‘bigodetes’, nos procuravam para aprender como fazer com as esposas', conta Lourdes. Segundo a ex-prostituta, as profissionais sofriam muito menos que hoje. Antes das noitadas, as rameiras dançavam, bebiam e namoravam as companhias. 'Havia as dançarinas de cartão. Os homens compravam cartões para dançar e beber com as mulheres. Quem não quisesse ficar bêbada disfarçava com suco de uva', lembra.

LAQUÊ

Ao longo dos anos, as mudanças sociais persistiram e a cultura da zona do meretrício se perdeu. Mas não completamente. O objetivo do Grupo Cuíra é, justamente, resgatar o cheiro de Laquê das antigas ruas e transformar o bairro. A peça reúne 20 atores, entre alunos da Escola de Teatro da UFPA e moradores do bairro. 'Nos sentimos responsáveis com o entorno', diz Wlad, que dirige a peça ao lado de Claudio Barros. Segundo Lourdes, a peça é o que faltava para completar sua experiência de vida. 'O Gempac não conseguiria sozinho', diz, sobre o Grupo de Mulheres Prostitutas da Área Central, organizado por Lourdes há 17 anos e uma referência no que se refere à prevenção das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs), ao combate à exploração sexual infantil e em projetos de promoção social envolvendo familiares das profissionais do sexo . 'Quem não era atriz, atuou muito bem. Entrar na hora certa e cantar na hora certa não são trabalhos fáceis', diz Papi Nunes, uma veterana do teatro e que agora também volta aos palcos.

Depois de anos dedicados à profissão e à luta contra a exploração sexual, o tráfico de pessoas e à prevenção de DSTs, Lourdes sobe ao palco com o espírito de quem viveu o enredo contado pela peça passo a passo. Hoje, mãe de quatro filhos e avó de dez netos, a atriz Lourdes Barreto permanece como articuladora do Gempac, e presta serviços para o Governo do Estado. Moradora da zona, ela defende a área e acredita que a Campina pode voltar a ter o antigo glamour. 'A zona ainda existe, mas não daquela forma. Hoje, só está melhor por causa do trabalho que o Cuíra vem realizando, com a revitalização da área e o trabalho social', diz.

Serviço: O espetáculo 'Laquê', do Grupo Cuíra do Pará, será apresentado às sextas-feiras, sábados e domingos de agosto, às 21h, no Espaço Cuíra (Riachuelo, esq. 1º de Março). Ingressos a R$ 20 (com meia-entrada).

 

CORPO ANCESTRAL

 

Olá Wlad,

Não sei se você se lembra de mim. Assisti sua peça no começo do mês de julho, em uma apresentação na qual acompanhei o Renê Guerra, amigo do Claudio e do Ronaldo lá de Maceió.

Saí de sua peça com muitas impressões e queria te escrever. Com o tempo
fui perdendo o frescor das sensações, mas quero ainda tentar reconstituir alguns dos comentários nesse email.

 

Não me lembro ao certo o por que, mas sei que sua apresentação me fez
lembrar o prefácio de um livro do poeta manoel de barros que faz parte de uma triologia sobre infância, maturidade e velhice. O primeiro livro chama-se "primeira infância" e é lindo (recomendo muito). O prefácio que quero comentar é do segundo livro, que é sobre a descoberta do mundo adulto e que teoricamente teria um título relacionado a isso, porém nesse pequeno texto introdutório Manoel de Oliveira diz que seria impossível dar um título sobre uma vivência que ele nunca teve já que nunca havia deixado de ser criança. Por causa disso o livro ficou
entitulado "segunda infância". E sua peça me fez lembrar desse "nunca deixar de ser criança" na forma de ver o mundo.

 

Gosto muito de trabalhar com mitos e símbolos. Talvez essa seja a minha
obsessão criativa - o imaginário. E nesse campo existe um enorme espaço para a ancestralidade e sua influências no nosso imaginário (me interesso muito pela idéia de inconsciente coletivo, embora nunca tenha estudado isso). CARNE E OSSO e todo o conceito de teatro de porão é muito forte simbolicamente. Tenho um livro chamado "a poética do espaço" do bachelard na qual ele analisa em um dos capítulos a simbologia do casebre / porão (capítulo que li para a realização de um trabalho universitário). Nesse capítulo ele proõe diversas leituras, mas me lembro claramente de uma na qual esse é o espaço reservado para refúgio do homem. É para esse espaço de lembranças e memórias onde o homem se refugia quando há uma tempestade no mundo real. Ele chama esse lugar de "canto do mundo". Cada um tem seu canto do mundo, seu íntimo, seu quarto secreto onde só você tem acesso e onde pode refugiar-se ou esconder memórias e fatos. O porão desperta esse senso de secreto, íntimo, obscuro, velho/guardado/trancado .. enfim... muito simbólico.

 

Ver seu corpo pela primeira vez na peça foi muito forte. Tive a impressão de assistí-lo em camera lenta, como assistimos aos documentários sobre vida animal nos canais tipo national geographic. Achei-o também ancestral. Há muito a visão de um corpo não me permitia realmente perceber o que é um corpo de verdade. Suas partes, seus movimentos, seu equilíbrio. Por acaso
ao chegar em são paulo fui à exposição do corpo humano no museu do ibirapuera, talvez por influência de sua peça. Mas o fato é que seu corpo não me trouxe a idéia de homem ou mulher (como me trazem as estátuas clássicas), mas trouxe algo próximo a essência do ser humano. Talvez por que você transborde amor. Sua imagem é amorosa, seus gestos, suas expressões e sua voz. (no budismo a deidade que representa a característica mais essencial humana é Avalokteshivara – não sei se é assim que se escreve - que é a deidade da compaixão. Ela possui
mil braços para abraçar todo o mundo). Seu rosto molda-se em formas tão simples e primárias (no sentido de puras) de expressão que representam claramente estados e sensações pelas quais a maioria de nós já passou na infância.

 

Dessa forma sua peça foi para mim um grande mergulho no íntimo do ser humano. A cada momento percebi imagens, gestos e palavras que levaram diretamente a esse mundo de sonhos e incosciente.

Sinto que agora começo a me perder nas minhas idéias, talvez mais tarde eu lembre de algo e te escreva, mas a princípio essas são algumas das sensações que tive durante sua apresentação de EM CARNE E OSSO.

 

Espero que tenha sido útil ao seu trabalho de pesquisa e mestrado. Agradeço muito a oportunidade que tive de assistir sua peça e espero que ainda mantenhamos contato e quem sabe algum dia trocar mais figurinhas sobre nossos trabalhos. Um grande beijo e abraço



Daniel Tonacci

ExtremArt

daniel@extremart.com.br

(11) 3881-4418 / 8446-6664 

O ESPECTADOR COMO CONSTRUTOR DE SENTIDOS


TEXTO DE UM DOS ESPECTADORES DO ESPETÁCULO EM CARNE E OSSO.

 

Cenas  EM CARNE E OSSO nas “alcovas” da Casa 69 - Riachuelo

  Uma casa antiga te recebe com incensos. Uma luz fluorescente verde ilumina e realça um singelo jardim. Os aromas das plantas noturnas invadem os ares noturnos. Parece guardar silenciosamente algum segredo, um texto, um substrato em seus porões.  Uma mulher te recebe e te (in) põe suavemente a tarefa de responder um questionário com algumas perguntas sobre teatro, sobre sim e não, sobre sensações.

Aguarda-se numa sala simples, decorada com cadeiras antigas postas em circulo e recortes de jornal nas paredes que denunciam  estupros e abusos sexuais de criança e adolescentes. 

 Uma foto para registro do publico, e a mulher desaparece por uma escada interna, reaparece a cada tocar de campainha. Outro espectador é recebido com uma frase cordial: entre e fique a vontade.  Como ficar a vontade em uma casa que parece ter alçapões que farão com que caiemos em espécies de armadilhas temáticas?  

Esse espaço e tempo de espera mostraram-se mais tarde; é uma ante-sala, uma sala de espera que guarda em suas paredes, disfarçadas de tinta azul, memórias de construção do espetáculo.  Pela boca da atriz, ela reconta seu encontro e sua mística viagem na composição do espetáculo. Como esse espaço se inscreveu em seu corpo. Casa 69, Riachuelo canto Campos Sales. Depois daquilo que eu vi, vivi, senti, tive de ab-reagir em um grupo que eu não fui buscar, revelar um não sei se devo dizer, um não sei se é por ai, eu já nem sei o que disse e o que dizer. Um estranho em meu ouvido, mas semelhante na escuta.

Sabia que estava indo assistir uma peça de teatro, mais ao ler o programa da peça, um texto encharcado de desejos, imagens avulsas começaram a me remeter a um possível crime que teria acontecido naquela casa, e que seriamos testemunha de sua recomposição, e juizes dos nossos olhares.  Como disse a personagem... a boca que fala  se faz cúmplice do ouvido que escuta.  Essa imagem permaneceu em mim, adormecida...Tive sonhos nada tranqüilos.

Musica infantil rolando, ouço agora. As Canções Curiosas de SSANDRA PERES e PAULO TATIT soam como um encantamento, como uma isca para o espectador não fugir, aguçou a curiosidade infantil que habita em mim, a onipotência infantil que habita em mim, assim fez-me seguir o convite da mulher que aparece, desaparece, reaparece.  

A convite da mulher que aparece, desaparece, reaparece da sala de espera sinaliza que devemos subir uma escada de fora da sala.  Essa noite tem chuviscos, a natureza parece espreitar a cena e quem sabe participar, parece querer atravessar comigo os labirintos da casa, seus corredores, que tem no fundo em mim um prazer infantil sado-masoquista.

Uma personagem convida para o espetáculo no corredor de uma sala de visita. Um texto convite dizendo que tudo aquilo é teatro. Tarde demais. Não consigo escutá-la.  A curiosidade infantil me arrasta para outra escada com alguns degraus.  Um ator nos oferece um texto curioso que parece falar e suscitar em sua fala a presença de alguma coisa inusitada, insólita – O ATOR.

Outro clássico convite: centrem-se, não precisam ficar tão a vontade.

Um texto reveza-se sobre os atores. Esta ávido para se dizer. Seu foco, O ESPECTADOR e o ATOR. Um texto marcado por posições territoriais. O texto rizomático e rizotônico busca o ator.  Não, não é um conceito de ator, conceito de teatro, mas a mística da representação. A ficção como MISTICA. Sim a personagem MISTICA do quadrinho, a mística azul como a parede do porão da casa 69 que transformou-se e transformou as misérias e os mortais em X-ATORES.

Uma trissomia-vaginal teatral é PERSEGUIDA.

Outro texto arranha o espectador. Úmido como as vaginas, dúbio como as esfinges, sedento como um vampiro.  Nesse porão, os atores não coçam os sacos, nem endurecem os pênis, como diz CLAUDIO, os atores deveriam BARRAR a falsa onipotência fálica do ator, e deixar-se vaginal.   

Movimentos nitidamente marcados, textos ditos e não ditos, revelam devires, sinaliza para o espectador: Acorda meu! Te toca, isso é TEATRO.  Não acredite em tudo o que você vê.  Mas creia em uma coisa, é uma peça de porcelana pintada com o sangue de uma cena de um assassinato de uma criança surda, encontrada morta de quatro, afogada na lama, com a cabeça afogada na lama.  Uma memória que persegue a atriz principal Wlad Lima. 

Dramaticamente babando e suando seus parceiros, companheiros e alcoviteiros nos diálogos auto e hetero EM CARNE E OSSO, Olinda Charone e Cláudio Barros, nos presenteiam com uma experiência VISERAL.  Essa bateu no fígado!!!!

Singelo, um menino, muito menino ainda, brinca com seu pai no porão de uma casa, poderia ser daquela casa.  É um menino, muito menino ainda porque não sabe contar em seqüência crescente nem decrescente. De costas para a parede, Singelo sente seu pai esfregar-lhe o pênis na bunda narrando uma partida de futebol.  Começa a angustia de alguns espectadores, que mais tarde será evidenciado na sala de espera.

Uma mãe que parece sentir ciúmes do filho porque e amado, violentado, acariciado pelo pai ameaça-o assá-lo no forno.   Chama-o de gordo, gordo, gordo das investidas bem sucedidas de um adulto.  Vejo uma mulher traída, pelos homens. Um pai que dispensa ao filho ora erotismo violento, ora ludicidade erótica.

Os sonhos de Sereno trazem para a cena figuras violentas e escatológicas as cobras, e figuras lúdicas e eróticas como as baratas que ele acreditava que seu pai apanhava para jogar em cima de sua mãe. Quando Sereno diz que ele prefere as baratas, a cena lúdica erótica parece confundir suas sensações de prazer experimentado com seu pai.

O texto e as cenas são como um bisturi, vão esbarrando, arranhando, marcando a presença, revelando fantasias de risco que tivemos(?) com os adultos próximos e distantes. Em muitos casos é preferível ficar saudavelmente adormecida.  Fantasias de Risco que no sub-consciente - daquele que se vê e não se vê, que fala e não se escuta - vaza pelos labirintos do mundo onírico.

As intimidades erigidas pelo assunto, pelo numero reduzido de espectadores, pela proximidade com o palco mobilizam campos afetivos inconscientes. Não sejamos sádicos em convidar pessoas que não freqüentam teatros, os teatros experimentais, são para quem vislumbra – tanto expectador quanto ator – um movimento ente/entre transações existenciais e sensibilidades estéticas. 

Muito obrigado por poder tê-los aplaudido, por ter estado ai com vocês.

Nunca, uma expressão se fez tão significativa. MERRRRDA!!!!

  Luiz Carlos de Carvalho Dias ,

 

Nas fotos, abaixo, Lula e os espectadores que estiveram na apresentação do dia 18 de maio de 2007, como ação participativa no Dia nacional de combate e denúncia contra o abuso sexual de crianças e adolescentes - Brasil

 

EM CARNE E OSSO NO YOUTUBE

 
     Um filminho com imagens do espetáculo EM CARNE E OSSO para vocês assistirem.
 
 
 

TEXTO DE AUTOR PARAENSE ATRAVESSA A VIDA E A CENA

Um texto de Edyr A. Proença, publicado em seu blog POLAROADS Instantâneos da vida , no dia 09 de abril de 2007, que vale muito republicar aqui nesta DRAMATURGIA DE UMA ATRIZ.

 

Abuso de Crianças

Estou há muito tempo para escrever algo a respeito do estupro de crianças. Gosto muito delas. Gosto de brincar, sobretudo com o ser que lhes habita o corpo em jogos de inteligência, alegria, bom humor. Tenho, em função do mundo atual, o costume de pedir licença aos pais, de maneira a desarmá-los de qualquer suspeita. Quando leio, diariamente, notícias referentes a esses abusos, fico impressionado. Diariamente, fico impressionado. Hoje li que metade das crianças na Índia pode já ter sido estuprada. Aqui em Belém, basta folhear o caderno policial dos jornais e está aquela cara assustada de gente comum, com a pecha de tarado, pois foi flagrado. Quase todos não têm explicação. Alguns, mais idiotas, ainda dizem que a culpa foi da criança, ao ficar passando à sua frente com roupas sensuais. Mesmo que isso seja verdade e é outro lado da questão, não há uma só desculpa para esse ato vergonhoso, que até já mereceu filme internacional, pois a maioria dos casos se verifica no âmbito doméstico, com pais, padrastos, irmãos, amigos, se aproveitando das crianças. E se isso é realmente diário, no mundo inteiro, porque não dedicamos mais tempo para tentar diminuir, alertar, fazer com que possíveis estupradores reflitam sobre o que ocorre?
Seremos nós, homens, esse animal sexual? Quantos são apenas doentes, pedófilos, que mesmo cometendo ato hediondo, merecem apenas tratamento, até, quem sabe, em regime fechado? No filme Volver, de Almodóvar, o padrasto passa pelo quarto da enteada e a porta está entreaberta. A menina, de uns treze anos, troca de roupa e vemos seu perfil, com os seios ainda recentes. Ele olha cobiçando e mais tarde, a ataca. Quase todos dizem que estavam bêbados, se descontrolaram. Qual a razão? Onde está o sexualmente atrativo nas crianças? A menina do Almodóvar era uma pré adolescente, mas a maioria dos estupros é na faixa dos sete, oito anos, alguns pegam bebês, meu Deus. Será a vontade de tomar aquela carne tenra, indefesa, por isso mesmo à disposição, sem maiores argumentos? Quer tomar aquilo que já é seu, por ser filho? Considera seu, por ser filho e por isso mesmo, talvez, se vingue da mãe, que por algum motivo não o satisfaz? Ou também foi abusado quando criança e quer repetir, mas agora ao contrário, sendo o possuidor? Vê a si próprio na criança e quer devolver a agressão? Vê na criança a figura da mãe, mas indefesa, e se vinga? A velha falta de Cultura que faz com que as relações da sociedade regridam, tragicamente, ao mesmo tempo em que a televisão grita costumes do século 21, para pessoas que vivem no século 19. Os programas infantis com as crianças vestidas como prostitutas, shorts cavados, danças lascivas, aumentando a tensão sexual, quem nem assim pode ser perdoada. Em Carne e Osso, espetáculo que o Cuíra estréia no Teatro Porão Puta Merda, com Wlad Lima, Olinda Charone, Cláudio Barros, Patrícia Gondim e Oriana Bitar, também fala disso. A criança sofrendo, calada. Se contar, vai apanhar. Se contar, não vão acreditar. Se contar e acreditar, a mãe se separa do pai ou padrasto e a tranqüilidade do lar vai ser quebrada, o homem vai embora e todos ficam sem o mantenedor da casa. É muita tensão na cabeça dessa criança que então, sofre calada, meu Deus, sofrendo diariamente o abuso. Ou a mãe sabe e faz que não sabe, seja por amor ao homem, seja por medo dele ir embora. A criança conta e ainda apanha. Perde toda a dignidade. Todos os valores éticos. Não acredita no mundo, em ninguém. Se considera um lixo, sem importância no mundo. Que cidadão é esse que está em formação? Agora mesmo, uma das mulheres profissionais do sexo, que trabalha com o Cuíra em Laquê, precisou se mudar. O filho havia sido estuprado quando a mãe saiu para trabalhar. É um assunto tão sério, tão absurdo, tão violento, tão importante, e ninguém do Governo trata dele. É algo latente, uma luz vermelha a piscar sem parar em todos os lares. Como pode alguém, que não seja pedófilo, ou seja, doente, precisando de tratamento, sentir tesão em uma criança de sete anos, meninas ainda sem seios ou quadris arredondados, meninos sem nada disso?
Arilene Rodrigues, a menina que trabalhou no segundo filme da série Tainá, de vez em quando passa uns dias aqui em Belém. Nós a levamos para comprar roupas. Nada do que traz é aproveitado, não só pelo desgaste, mas principalmente pelos modelos, absurdamente sensuais. E quando chegamos às lojas infantis, todos os modelos são na mesma tecla. Shorts cavados, mini saias, calcinhas biquíni, enfim, terrível. Basta ligar a tv, que no caso, fica ligada o dia inteiro e não é na Globo, mas sobretudo em outros canais, com a estética inteiramente comprometida.
A ausência de Cultura levou todos a acreditar que Cultura é a mesma coisa que Lazer. Não é. Assim, quando digo que a falta de Cultura é muito mais dramática do que a falta de Educação e Saúde, sei que muitos não levarão a sério. Enfim. Estamos regredindo em tudo. Estava no McDonald’s. Ao meu lado, mãe e filhinha, classe média. Ela diz à filha “fica do meu lado pra ti pedir teu lanche”. Começa desde cedo. O império da burrice, da cretinice, violência, agressividade. Que coisa.

Edyr Augusto Proença

 

Fotos de uma das cenas mais fortes de EM CARNE E OSSO.

Na cena, Wlad Lima (menino Sereno) e Claudio Barros (padrasto), vivendo o estrupo.

 

 

 

VIVENDO E APRENDENDO COM O POVO DA RUA

No início do século 20, Belém do Pará, em função de sua localização geográfica, tinha um porto extremamente ativo. Assim, constantemente, havia marinheiros na cidade, que para se divertir, iam até a zona do meretrício, exatamente na área onde está situado o Espaço Cuíra. Num quadrilátero formado pela Primeiro de Março, Riachuelo, Padre Prudêncio e General Gurjão, funcionaram diversas pensões, freqüentadas também por grandes figuras da cidade e altas autoridades. Nos anos 60, o governador de então resolveu fechar as casas de tolerância, que mesmo assim, com pouco movimento, prosseguiram, hoje trocando o luxo e luzes de antes, por miséria e desamparo. A Cultura vem provando seguidamente ser uma grande chance para proporcionar às pessoas uma subida de nível, seja no âmbito educacional, comportamental,mas principalmente de reflexão e auto determinação de mudança. Na convivência riquíssima com os moradores e trabalhadores do entorno, há desde palestras sobre cuidados com o corpo até atendimento odontológico, feito através de parceria com a ABO – Associação Brasileira de Odontologia do Pará e Conselho Regional de Odontologia. Nos primeiros contatos com a presidente do Gempac, Ong antiga, que cuida de prostitutas, falando a respeito do antigo glamour da zona do meretrício, Lourdes disse que naquela época, a “rua cheirava a laquê”. Veio daí o título do espetáculo desenvolvido com diversas oficinas profissionalizantes, outras destinadas ao teatro, que aos poucos chegaram neste que é tão somente o primeiro resultado. Muito mais virá.

Veio O LAQUÊ!

O elenco do espetáculo é grande e variado. Primeiro foram encontros e depois oficinas para liberar o corpo, liberar a alma. Assim, vieram as primeiras histórias. Homens e mulheres. Vendedores, moradores, profissionais do sexo. Então,a direção, fez seleção de atores. Apareceram moças e rapazes, da Escola de Teatro da UFPA. E começaram pra valer os ensaios. Pra falar o quê? Para lembrar o glamour da época áurea da zona. Para contar uma história de amor, dentre tantas, verdadeira. Com momentos engraçados, vibrantes, tristes, outros mais fortes e até corpos nus. Para um processo maravilhoso que além de juntar esses jovens a esse “pessoal” do entorno em uma troca altamente enriquecedora, também reuniu alguns dos mais famosos profissionais do teatro do Pará. “Laquê” se passa no tríduo momesco, pontuado pelas encantadoras marchinhas carnavalescas. Acima de tudo, é uma homenagem a Luiz Otávio Barata, que havia sido convidado e tinha aceitado vir de São Paulo para dirigir, mas, pouco antes, recebeu outro chamado, mais importante e foi pro céu. É apenas o primeiro resultado do Núcleo Zona Central. Por isso, nosso abre Alas.

 

ELENCO

Geovana Lima

Lene Lima

Vitória Margalho

Cinderela

Lourdes Barreto

Irene Natividade

Marcos Luiz Lopes

Jhonson Carvalho

Rose Borges

Landa de Mendonça

Tanara Santos

Iracy  Vaz

Nara Bastos

Rafael Moreno

Heyder Moura

Leandro Haick

Hildomar Oliveira

Diego Vattos

Leonel Ferreira

Atriz convidada

Papi Nunes

FICHA TÉCNICA

Direção – Wlad Lima e Cláudio Barros

Assistente de Direção – Rosa Marina Leitão

Assistentes da Oficina na Preparação de Atores-

Walquiria Loureiro, Maílson       e Nara Bastos

Dramaturgia – Edyr Augusto Proença

Assistente de Dramaturgia – Tanara Santos

Criação de Luz – Patrícia Gondim

Assistentes de Luz – Thiago Figueredo

                     Elton Cardoso

                     Ronaldo Magalhães

Eletricista – Edmilson Silva

Direção de Palco – Oriana Bitar

Assistentes de Palco  e Contraregragem– Elton Cardoso

                                        Ronaldo Magalhães

Cenário – Charles Leon Serruya

Pintura de Cenário – Margalho Açu

Aderecista – Delean Cardoso

Figurinos – Bah

Produção de Figurino – Cláudio Barros

Costureiras – Telma Lima

Preparação Vocal e Direção Musical – Lúcia Uchôa

Produção de Perucas – Ronaldo Lopes                    

Professor de Dança de Salão – Franck Coelho

Assistente de Dança de Salão – Sandra Condurú

Design Gráfico – Janjo Proença

Produção de Base – Papi Nunes

Produção Executiva – Zê Charone

VENHA ASSISTIR.

 

EU ESTOU EM CARNE E OSSO

O LUGAR E OS ACONTECIMENTOS QUE ME DESENHARAM CRIANÇA

No princípio, foi preciso encontrar uma casa que tivesse um porão, comprá-la e fazer as adequações necessárias. Entre seus vários cômodos reformados, um espaço ficou vazio. Com 8m de comprimento, 2,70 de largura, apenas 2m de altura, lá estava ele! O TEATRO PORÃO PUTA MERDA: um laboratório teatral de dimensões íntimas.

Nos primeiros dias, o lugar já não ficou tão vazio. Ficou azul, de um azul quase marinho. Um Rimbaud veio visitá-lo, mas logo foi embora. Aí veio à lembrança a história da Lúcia - uma menina encontrada morta, de quatro, com a cabeça atolada na lama, estuprada – e do gosto amargo da minha mudez frente a este fato. A imagem daquele corpo de quatro ficou habitando aquele espaço azulado-quase-vazio.

Delicadeza em cena - nos gestos, nas palavras, nas imagens - foi uma busca constante no processo de criação deste espetáculo teatral. Tarefa dificílima foi esta, a de encontrar o delicado aonde só havia dor e brutalidade. Frente à morte violenta de uma criança, a minha indignação veio muda, seca, hipnótica. Mas foi esse silêncio explodindo tudo, internamente, que me levou a construção de EM CARNE E OSSO.

Deixei o espaço ficar azul por um bom tempo até que a saudade do La Roque – meu Verlaine que partiu tão cedo, atrás de seu Rimbaud - fosse acalmando no meu coração, para só assim, construir dentro deles – espaço e coração - um esqueleto de caibros e ripas. Concebi uma estrutura cenográfica inspirada nas estivas que invadem a Baía do Guajará e são invadidas por gente muito pobre como a família de Lúcia. Vislumbrei sobre a estiva, o espectador, e sob ela, o corpo de quatro do ator. Mas fui descobrindo dia-a-dia que a posição do espectador em cena é enganosa. Na realidade ele está lá em baixo, no fosso, junto com os bichos, com os debaixo. Ele está dentro da cena, na lama.

Pensando nisso - em flexionar a relação ator/espectador, palco/platéia, torná-la mais íntima – foi que me debrucei em habitar aquele lugar; adquirir hábitos dentro daquele novo cosmo-corpo-esqueleto-de-madeira. Fiquei nua, literalmente.

Mas, o que contar de fato? Como contar? Com o que? Com quem? Para quem?

Apropriação de si mesmo foi o princípio metodológico disparador de possíveis respostas para fazer esta criação.

Remexendo o meu baú de textos, objetos, imagens, pele e ferida - que estão em mim - rasguei roubei colei de tudo, montando um roteiro de palavras e movimentos que me deixou Em carne e osso.

Gritei por socorro, fiz acordos e os parceiros foram chegando. Hoje somos cinco atores-criadores em cena, uma atriz-produtora nos bastidores e um grupo: o Cuíra - grupo de uma longa trajetória de 25 anos que estamos comemorando em 2007 e que não iria me faltar nesta cena de “doutora” obviamente, visto que com ele e sua Dramaturgia Pessoal do Ator, me fiz mestre nas Artes Cênicas.

C`est magique!

Na cena me desenhei criança para falar das crianças que são feridas na relação com este mundo tão adulto, capitalístico e violento. Creio necessário, urgente, como tarefa do ser artista.

Digo a vocês, espectadores/parceiros que estão chegando agora, que não precisam se preocupar, pois este espetáculo não é interativo, avant-garde. Ele só se quer preciso e nem sempre o é.

Vocês também não precisam me perguntar o que tem de meu neste espetáculo – por que sou gorda, magra, homem, mulher, ator, atriz e tantas coisas mais – isso só a mim importa. Eu sou o ator da cena, sou criador, mas não o único construtor de sentidos. Neste espetáculo nós – atores e espectadores - negociaremos discursos, falas, sensações.

Portanto, vocês vão precisar isto sim, perguntar a si próprios, o que tem de vocês em cada cena, choro, dor, em cada sonho ou em cada pontinha de amor sentida.

Por uma hora vocês não estarão serenos, com toda a certeza. Vocês serão Serenos: os moradores deste nosso lugar.

Vocês serão Serenos na ficção e quem sabe, na vida.

E tudo isso diante dos olhos de minha alma!

    WLAD LIMA

Belém- Pará, abril de 2007.

A BIOPOLÍTICA NO TEATRO DE BELÉM

CIRCUITO TÁ NA ZONA

O Circuito TÁ NA ZONA é uma iniciativa de artistas trabalhadores / moradores do bairro da Campina. Nesta sua primeira versão já está com uma programação imperdível para os meses de abril, maio e junho:

O espetáculo LAQUÊ do Grupo Cuíra do Pará será apresentado todas terças-feiras, às 21h no Espaço Cuíra, na Riachuelo, esquina da Primeiro de Março. No elenco atores e trabalhadores da Zona Central de Belém. É O primeiro trabalho do Cuíra no novo espaço e conta com todo o apoio do GEMPAC, entidade que representa as profissionais do sexo de Belém.

EM CARNE E OSSO é o espetáculo do Teatro Porão Puta Merda que fica na Riachuelo 69, esquina da Campos Sales. Este espetáculo é um experimento cênico apresentado para 8 espectadores convidados, todas as quartas-feiras, às 20h. Quem quiser ser convidado é só ligar para 9987 7819 e falar com Zê Charone, produtora do evento. No palco Claudio Barros, Olinda Charone, Oriana Bitar, Patrícia Gondin e Wlad Lima.

No U.Porão, outro espaço cultural da Campina - na Campos Sales 628, entre Riachuelo e General Gurjão - volta em cartaz o espetáculo 80 JÁ ERA! com direção de Nando Lima. O espetáculo será apresentado todas as quintas-feiras, sempre às 21h.

Completando o circuito TÁ NA ZONA, todos poderão ver uma obra da artista multimídia Karine Jansen intitulada Zona de Preservação da Memória Teatral, uma instalação que poderá ser visitada no Hall do Espaço Cuíra em dias de apresentação dos espetáculos. 

E aí você, também  TÁ NA ZONA?

De terça a quinta durante os meses de abril, maio e junho você tem um bom motivo para ir aos Teatros Independentes de Belém

Imagens do personagem   SERENO   meu devir-criança   EM CARNE E OSSO.

SOLOS DE VOZ EM CENA I.

VOZ EM ON

PROJETO DE ESTUDO PARA A CRIAÇÃO CÊNICA

VERSÃO 2006 / AS BRUMAS DE AVALON

 

Princípios de criação:

O ator será o criador de seu trabalho solo.

Alguns critérios serão comuns a todos os trabalhos:

Uso da palavra

A criação de cena a partir do método de stanislavsk.

Registro diário do processo de criação em suporte eletrônico e disponibilizado na web, em diferentes gêneros digitais, a critério do ator/criador.

As obras indutoras da criação de todos os trabalhos serão os volumes de as brumas de Avalon.

 

Processos de criação:

O ator terá encontros semanais com toda a equipe de criação e espaço onde poderá apresentar reflexões e demonstrações práticas de sua criação.

Fica a critério do ator/criador a escolha de personagem, situações e textos referentes a obras indutoras.

Todos os aspectos da concepção cênica serão de autoria do ator (Cenografia, figurino, maquiagem, luz, som e etc.).

Todos os atores terão a consultoria técnico-artística de profissionais da criação cênica:

Direção de voz – Ana Ribeiro.

Direção de corpo – Bel Souza.

Encenação – Jorge Gáspari e Wlad Lima.

Registro do processo de criação em hipermídia - Wlad Lima.

Cenografia e designer gráfico – Rose Vermelho.

Produção e Interpretação – Jaqueline Vasconcellos.

 

O ator terá encontros individuais – presenciais ou telepresenciais -com os consultores de criação, sempre que houver necessidade.

 

Produtos da criação:

O solo de cada ator é uma obra independente e com vida própria.

Após o término do ciclo de estudo e criação do projeto voz em on cada ator terá autonomia e responsabilidade pela vida de sua criação.

A possibilidade de “costura” entre os solos, dando origem a um único espetáculo, será discutida a posteriore.

Todos os espetáculos solos terão o compromisso de dar créditos de realização ao projeto de estudo e criação voz em on e de consultoria aos profissionais envolvidos no projeto, em todos e quaisquer materiais de mídia.

WLAD LIMA.

Data: fevereiro de 2006.

Contatos:

gordawlad@yahoo.com.br

http://spaces.msn.com/atorcriador/

(91) 3259 0541

 

SOLOS DE VOZ EM CENA II.

Modos de registro de processo de criação em hipermídias

Para o projeto voz em on – versão 2006.

 

O que são modos de registros hipermidiáticos?

 

São gêneros digitais disponibilizados em diferentes ambientes virtuais. Eles podem estar na web, como no caso dos documentos hipermidiáticos ou em grupos de discussão, chats, endereços eletrônicos e etc.

Como o nosso trabalho é da área da cena, presencial, os documentos hipermidiáticos – aqueles que comportam uma interatividade com o leitor/ navegador e articulam diferentes linguagens, como imagens, sons, vídeos, textos e etc., são os que mais interessam.

O ator/criador deverá escolher um ou mais modelos disponíveis gratuitamente em diversos provedores.

Ao abrir uma conta, isto é, fazer um e-mail, ator poderá manter blogs, fotologs, vídeoblogs, podcast ou outros tantos mais, desde que, mantenham seus registros atualizados. Tarefa esta, que lhe será solicitada, constantemente. Os provedores desses formatos de fácil manuseio são: MSN, YAHOO, CLICK 21, BLOGGER E ETC. Consultas sobre esta questão poderão ser feitas, virtualmente, para Wlad Lima (contatos no final deste documento).

 

Os objetivos do registro hipermidiático de processo de criação dos solos, neste projeto, são:

 

A possibilidade constante de manter o ator/criador em um trabalho de formatação colaborativa.

A necessidade do exercício reflexivo por parte desse ator/criador.

A realização de parcerias entre criadores de cena em telepresença.

 

Estas ações estarão justificadas no decorrer do processo, logo que, as pequenas contribuições de outros criadores e amigos - leitores à distância de cada um dos espetáculos em construção - poderem ser, de alguma maneira, absolvidas no processo pelo ator/criador. Outrossim, no final, a possibilidade de termos “a vida de cada obra” a disposição de novos desdobramentos.

 

É de suma importância que os primeiros registros datem do momento de aceitação do convite, contendo as primeiras impressões, sensações e os primeiros entendimentos da proposta do projeto voz em on. Os registros devem cobrir todo o process o.

WLAD LIMA

Contatos:

gordawlad@yahoo.com.br

http://spaces.msn.com/atorcriador/

91) 3259 0541

Cartografia de fronteira - a introdução de uma tese.

 

 

Damos o nome de criação

a tudo o que promove a passagem

do não-ser para a existência.

(Platão, O Banquete).

 

 

A presente tese investiga e traz ao debate, modos de registros de processos de criação de artistas da cena, sua hibridação com as práticas narrativas hipermidiáticas resultantes da fusão das artes com as novas tecnologias da informática e com as novas redes telemáticas, na contemporaneidade. Resultado de um estudo exploratório que se quer reconhecido como uma cartografia dos diferentes ambientes virtuais e gêneros digitais na internet onde o teatro já se inscreve, justificando a tese estar intitulada de TEATRÁLIA: Uma Cartografia de Fronteira entre a Cena Teatral e a Cena da Hipermídia.

 

Com a realização desta pesquisa, me autorizo, em sua futura defesa, reivindicá-la como pertencente à confluência das artes cênicas com a nova área do conhecimento denominada de cibercultura; em favor de um hibridismo artístico-científico.

 

O meu interesse no estudo desses modos de registro de processos de criação de artistas da cena vem permeando todos os meus campos de trabalho - artístico pedagógico e científico. Interesse iniciado pela prática constante dos diários de bordo nos processos de montagens dos espetáculos teatrais dos quais ora fui atriz, diretora, roteirista, cenógrafa ou quaisquer outras funções que a mim coube realizar.

 

Problematizei minha pesquisa discutindo como as possibilidades de aplicação da linguagem dessas novas escrituras mediadas por computador podem interferir nas práticas narrativas e modos de registro do processo de criação da cena, bem como, pensá-las como instrumentos do próprio ato da criação.

 

O desejo de encontrar disponibilizado na internet algo como o processo de criação de um espetáculo teatral, enquanto este se processa – desejo até o momento, realizado em parte – me leva a conceber o argumento para o roteiro TEATRÁLIA: Uma Sala de Ensaio Online. Esta é uma proposta para uma escritura hipermidiática (site/blog) que será disponibilizada na web, como um espaço para o exercício de disponibilização de processos de criação de práticas cênicas em tempo real.

 

Muitas questões se apresentam, imediatamente após, o enunciado deste desejo. Principalmente por acreditar ser possível, não apenas disponibilizar, visitar o ensaio; brechá-lo como se faz nos reality shows, mas intervir nele, assisti-lo, no sentido de cuidar, acompanhar, alterar o trabalho, junto aos criadores. Algumas questões são aqui formuladas:

 

1)                           Como disponibilizar os ensaios de uma montagem durante o seu processo de desenvolvimento?

2)                           Ao disponibilizar a Sala de Ensaio na web, como proceder na condução dos ensaios?

3)                           Ao disponibilizar os ensaios na web, como criar meios para saber da recepção do processo?

4)                           Ao tomar conhecimento da recepção, de como está se efetivando? Como absorver indicações provenientes dos receptores? Como transformar esses receptores em disparadores de novos caminhos da criação?

5)                           Como criar, com a participação de um novo tipo de espectador, que estará presente, mediado por novas tecnologias e através das novas redes telemáticas, disposto a ser ativo no processo?

 

Como pano de fundo destas questões, procurei objetivar em primeiro lugar, fazer um levantamento das categorias de análise já existentes para obras dessa natureza podendo assim ser conduzida à elaboração de categorias próprias para realização desta cartografia de obras virtuais, as confluências entre as suas convenções e as convenções do fazer teatral. Procuro por obras que narrem algo tão específico como a presencial idade da cena teatral.

 

Em segundo lugar, estabelecer que possíveis diálogos possam ser constituídos, entre as perspectivas artísticas dos criadores da cena – tanto de suas escrituras cênicas propriamente ditas quanto de suas escritas de conteúdo hipertextual - e as teorias filosóficas e sociológicas dos autores convidados à fundamentação teórica da pesquisa.

 

Em terceiro - após as análises das escrituras selecionadas, propor o argumento do roteiro de TEATRÁLIA, com seus princípios, plano de processo e proposta de formato, para uma posterior publicação eletrônica. Espaço virtual, ele mesmo pensado como uma prática narrativa hipermidiática (ambiente, sítio virtual) a ser experimentada. Este sítio virtual será constituído pela Cartografia do Teatro na Web e a Sala de Ensaio Online - como espaço de disponibilização em tempo real de processos de criação de artistas da cena, da cidade de Belém do Pará, - complementadas por colunas variadas sobre o fazer teatral, especialmente da região norte onde está localizada a cidade em questão, atualizadas periodicamente, por colaboradores com suas respectivas páginas pessoais.

 

Atendendo aos objetivos acima expostos, o corpo desta tese está estruturado em três capítulos:

 

Primeiro, um capítulo trazendo os aspectos filosóficos, artísticos e técnicos desta questão. Pela cena teatral, Ortega & Gasset, Patrice Pavis, Cacá Carvalho e eu, Wlad Lima, como autora de Dramaturgia Pessoal do Ator. Na cena hipermidiática, autores como Marcos Palacios, Luis Antônio Marcuschi, André Lemos e Vicente Gosciola. E, atravessando as duas cenas, Giles Deleuze e Félix Guattari, em busca da net-cena.

No segundo, uma Cartografia do Teatro na Web. Esta parte do corpo do texto se constituindo como uma contribuição aos aspectos sociológicos da cibercultura, pois foi trabalhando nesta nova dimensão da realidade social do teatro - a partir da perspectiva de uma abordagem cartográfica dos modos de registro de processo de criação da cena teatral na contemporaneidade - que me deparei com as práticas narrativas hipermidiáticas do fazer teatral no ciberespaço. Quem me acompanha nesta navegação são mais Suely Rolnik, Gilbertto Prado, Lúcia Santaella, Luli Radfahrer, André Parente, Gustavo Fortes Said e todos os criadores de cena que generosamente disponibilizam seus escritos na Net.   

O terceiro capítulo traz o roteiro de concepção de um sítio virtual, um site/blog, ambientando, além da cartografia do teatro na web, uma Sala de Ensaio Online. Esta é um experimento de uma Prática Narrativa Hipermidiática de Processos de Criação de Artistas da Cena a ser disponibilizada na Internet, em tempo real. O conceito de Performance em Telepresença, de Maria Luíza Fragoso será desenvolvido neste capítulo como o indutor para a criação da Sala de Ensaio.

 

Esta tese, construída como uma cartografia de fronteira com a hibridização de cenas/linguagens, metodologias, teorias e criadores hipermidiáticos, terá seus resultados disponibilizados aos profissionais das artes do teatro, na perspectiva de gerar uma ação concreta de conexão entre ambientes de socialidade virtual, onde, o teatro e suas escrituras, aparecem como produtos ciberculturais, reconhecidos, como cena de uma outra espetacularidade. Os processos de criação a serem disponibilizados na Sala de Ensaio Online serão sempre tratados com o princípio central da abordagem da etnometodologia, isto é, a busca dos etnométodos dos sujeitos criadores da cena teatral – por isso considero a tese, e mais o seu desdobramento, uma metodologia de caráter híbrido.

 

Para concluir esta introdução, esclareço que esta busca dos etnométodos, se efetivará através de minha observação participante na coordenação da Sala de Ensaio Online, acompanhada de registros foto-vídeográficos - tratados e disponibilizados em diferentes formatos hipermidiáticos – entrevistas abertas, diários de bordo (cadernos da pesquisa) e da transmissão, em tempo real, de processos de criação de espetáculos, através da utilização de webcam. Tenho certeza que isso só será possível, no pós-tese, por eu ser uma profissional que atua tanto na cena – atriz e diretora – quanto na formação de atores, autorizando-me a não só penetrar nos territórios, mas também, com eles fazer novas criações.

 
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