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DRAMATURGIA PESSOAL DE UMA ATRIZUma História de Vida nos palcos de Belém. TEORIA DA CENA - ETDUFPA - CENOGRAFIA 2 ANO
NOVO BLOG SOBRE A IN BUSTMINHA NOVA PESQUISA EM ARTE
PROJETO: BONECOS ? (que) IN BUST !
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Para dar vontade de ver posto no álbum fotos do novo espetáculo da In Bust: "O conto que vim contar".
Conheça Tyka sem um ponto - O Blog de Tyara de La Rocque.Eu não poderia deixar de falar desse espaço que abre a fala para uma comunidade ilhada. As disparidades entre o ontem e o hoje na zona do meretrício
Matéria de Alberto Silva Neto sobre Teatro de Porão publicada em O Liberal é postada aqui na íntegraO teatro ao alcance do tato Alberto Silva Neto* Especial para o Magazine
Verdade seja dita: o nome de Wlad Lima é referência no teatro paraense. Ela, certamente, vai odiar essa afirmação. Indiferente a elogios de circunstância e holofotes ocasionais, essa atriz, diretora e professora paraense de 46 anos, prefere estar focada nas pesquisas que realiza sobre a arte abraçada para toda a vida. Agora, como resultado dessa investigação, uma parte importante de sua produção – os últimos 18 anos, mais precisamente – ganha um estudo em forma de tese de doutoramento, pelas mãos da própria artista. “A investigação e análise de minhas próprias obras com o objetivo de revelar a poética inscrita nesses corpos cênicos (...) foi algo que me exigiu uma espécie de sobrevôo na criação. Não com o intuito de ver de cima, de fora, mas sim com a autonomia de poder reinventar a mim mesma, sempre. Reinvenção de minha imanência (vida) e de minha obra”, escreve ela na tese. Engana-se, porém, quem acha que aqui está se falando ao próprio umbigo, quando a abordagem daquilo que é pessoal restringe o alcance do trabalho; ao contrário, trata-se de uma investigação fundamentada em fatos que lançam luzes sobre a natureza e o sentido do fazer teatral em Belém, nas últimas duas décadas. O estudo começa com a definição de um espaço para essa prática teatral, que recaiu sobre um traço herdado da arquitetura portuguesa – os porões. A tese afirma que a natureza desses espaços tão peculiares constitui uma estética própria e uma prática teatral específica de Belém do Pará. “São verdadeiras poéticas cênicas encravadas em porões”, define Wlad. “Nos últimos 18 anos, foram montados 50 espetáculos em porões da cidade”, completa, revelando dados surpreendentes que expressam o volume significativo dessa produção. Desses espetáculos, onze foram dirigidos por ela, em quatro porões diferentes, e são eles que compõem o objeto da investigação. Tudo começou em 1989, quando Wlad assistiu ao espetáculo “Josefina, a cantora”, uma versão cênica para o conto de Franz Kafka criada e interpretada pelo francês François Kahn. A montagem foi apresentada no porão do Teatro da Paz, coisa até então inédita na cidade. Quando o espetáculo acabou, a espectadora Wlad Lima estava estupefata. “Naquele momento senti que queria fazer teatro em porões”, lembra. E o primeiro espetáculo dirigido por ela em um espaço semelhante veio já no ano seguinte. O porão da casa que até hoje sedia a Universidade Popular (Unipop), entidade para a qual coordenava atividades culturais, virou cenário para “Dama da Noite”, do grupo Cuíra do Pará, com versão de Kil Abreu para o conto de Caio Fernando Abreu. Dois anos depois, em 1992, montou uma versão da peça “Hamlet”, de Shakespeare, já com o Grupo de Teatro da Unipop. Em ambas as montagens, a ação cênica envolvia atores e espectadores em um mesmo espaço. Nascia ali uma das características mais marcantes da encenadora, que desde então já bebia na fonte inesgotável do pensamento de Jerzy Grotowski, diretor polonês do Século 20 que entrou para a história principalmente ao eliminar a distinção entre palco e platéia, e defender que a essência do teatro está no contato humano entre ator e espectador. Escola - O segundo e terceiro espaços surgiram quando a Escola de Teatro e Dança da UFPA, da qual Wlad já era professora, se mudou para uma casa com porões. Ali Wlad realizou cinco espetáculos, sempre com alunos-atores. Foram eles “Mariano”, em 1996, com texto do paraense Paulo Faria; “Do que brincam os meninos que serão poetas?”, em 1997, inspirado na obra de Federico Garcia Lorca; “Maravilhosa Orlando”, em 1999, com texto de Antar Rohit; “Circo Vitória”, em 2001, outra vez de Paulo Faria; e “A-mor-te-mor”, em 2002, a partir do romance “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez, e criado em parceria com a diretora e professora Karine Jansen. Os quatro últimos foram montados no porão transformado em Teatro Experimental Cláudio Barradas, mas o primeiro é fruto de uma história curiosa e reveladora dos caminhos cênicos percorridos por ela. Para realizar a montagem de “Mariano”, recusou o teatro experimental para “inventar” outro, bem mais acanhado, mas com o intimismo e o despojamento que queria. O trabalho foi tão marcante, que depois da temporada o porãozinho passou a ser chamado de Espaço Mariano, e abrigou outras montagens. Entrecortando essa produção ligada às funções que exercia naquelas instituições, Wlad já começava uma nova fase de criação, agora em espaços independentes. O primeiro foi o Teatro Bufo, considerado o primeiro teatro de bolso da cidade. Administrado pela Dramática Companhia, fundada por ela, o espaço abrigou quatro de suas encenações. As três primeiras foram realizadas no mesmo ano, em 2001: “Duas tábuas e uma paixão”, colagem na qual fazia uma declaração de amor ao teatro, “Como um beija-flor a dois metros do chão”, sobre vida e obra de Arthur Bispo do Rosário, e “Devagarinho... Eu deixo”, a partir de obra do dramaturgo Elcione Araújo, e que inaugurava a Escola de Bufões, criada para formar novos atores. A fase do Espaço Bufo se fecha em 2002, com a montagem de “Água Ar Dente”, a partir da peça “John e Joe”, da dramaturga húngara Agotha Kristof, pelo grupo Cuíra do Pará.
Uma artista que se revela em carne e osso
A tese de doutoramento “O teatro ao alcance do tato – Uma poética encravada nos porões da cidade de Belém do Pará” consumiu três anos de dedicação, e é realizada pela Universidade Federal da Bahia. A oportunidade surgiu logo depois que Wlad concluiu o mestrado, juntamente com outros 16 professores da Escola de Teatro e Dança da UFPA, a partir de convênio entre as duas universidades. O tema foi a Dramaturgia Pessoal do Ator, investigada durante o processo de criação do espetáculo “Hamlet – Um Extrato de Nós”, montado em 2001 pelo Grupo Cuíra, com direção de Cacá Carvalho, e a dissertação foi publicada em livro, em 2005. Além da tese, que será defendida em março de 2008, na presença da orientadora Sonia Rangel – atriz, diretora e doutora em artes cênicas carioca, mas radicada na Bahia – o processo incluiu a montagem de um 12º espetáculo, que serviu de experimento cênico da pesquisa. “Em carne e osso” reúne cinco criadores: Cláudio Barros, Olinda Charone, Oriana Bitar e Patrícia Gondim, além da própria Wlad. O espetáculo conta a história de um garoto obeso que é vítima de violência sexual praticada pelo pai. O tema denso fica ainda mais chocante ao ser narrado num minúsculo espaço, para um público de apenas oito espectadores convidados. A obra foi apresentada durante três meses no Teatro Porão Puta Merda, o mais novo espaço cênico independente da artista, e agora mais pessoal do que nunca, já que foi construído no porão da sua própria casa. Em sua mais recente criação, Wlad consolida uma síntese dos princípios que desenvolveu durante a carreira. Entre estes, destaque para uma recorrente abordagem da própria arte do teatro como universo temático (metalinguagem), a forte ênfase no depoimento pessoal dos criadores da cena, e a utilização da forma espacial unitária, aquela que suprime a divisão de palco e platéia e na qual ela defende uma espécie de dissolução da figura do ator. “Hoje acredito num teatro onde tanto atores quanto espectadores sejam os atuantes”, resume. O intimismo foi levado ao extremo na montagem, que propõe até o contato físico entre ator e espectador. Além disso, a pesquisa ampliou seu objeto quando, após cada apresentação, os espectadores participavam de um debate, que foram gravados e depois transcritos, e hoje reúnem a íntegra das impressões e opiniões daquelas 160 pessoas que viveram o experimento. A idéia é que a tese, depois de concluída, também seja publicada. Até porque Wlad Lima não consegue ficar parada. Antes mesmo de encerrar esse trabalho, já faz planos para um pós-doutoramento, que deverá lançar um olhar sobre a In Bust Companhia de Teatro com Bonecos, investigando a atuação desses artistas paraenses enquanto estrategistas de sua carreira profissional. Será que nascerá daí o décimo terceiro espetáculo criado por Wlad Lima para um porão? É possível que sim. Se não for, porém, outra motivação qualquer deverá surgir em breve na alma dessa inquieta encenadora. Por isso, fiquemos atentos. E nunca é demais lembrar: sempre que decidirmos adentrar essas verdadeiras cavernas da criação sejamos cautelosos ao dar o primeiro passo; será no coração da própria artista que estaremos pisando – ou seria melhor dizer em nossos próprios corações?
*Alberto Silva Neto é jornalista, ator e diretor teatral.
Carta enviada por "gente de teatro" de GoiâniaRecebi postada nos comentários de meu blog http://teatronanet.blogspot.com/ uma carta que revela a revolta, justificada devido a não seleção da Cia., porém injusta porque faz acusações à comissão de seleção dos grupos locais (goiânia), do qual fiz parte (como está postado logo abaixo), como se todos nós fossemos mamulengos que dependem de manipuladores. Creio que nem os meus queridos bonecos são tão manipuláveis assim; creio que há neles, vida própria.
Este país é grande, mas não tanto, para que "gente de teatro" não conheça de fato as condições de trabalho, uns dos outros; suas lutas, conquistas e perdas. Pouco conheço do trabalho da Cia de Teatro Novo Ato, apenas através de um vídeo que com toda certeza, pouco diz de sua produção, mas que estava como o "meio de recepção" do trabalho disponibilizado para nós, da comissão julgadora. Esta forma que pode não ser a melhor, foi aceita por cada um dos inscritos naquela seleção . Assim, do fundo do coração, espero que "meus iguais de teatro" daquela cidade, assumam que de fato também nada sabem do trabalho artístico que eu desenvolvo em minha cidade, Belém do Pará, bem como de meus outros dois companheiros de tão dolorosa empreitada .Percebi que vocês não me conhecem como a mulher de teatro que sou. Sei que não sou global e sei que não preciso sentir culpa por querer e lutar para ser doutora de meu ofício. Sem mais delongas, dou aos artistas goianos o direito da palavra, publicando aqui sua cartinha.
CARTA AOS JURADOS E DEMAIS 2 de Outubro de 2007 12:43
Goiânia em Cena 2007Peguei um ITA no norte e fui participar da seleção local do "Goiânia em Cena - 2007". Esta função de meu ofício de ser "mulher de teatro" - compor a comissão julgadora é também cena - me fez reconhecer, na produção espetacular desta cidade, as semelhanças e as diferenças em relação a produção do norte do pais; a produção de minha cidade, Belém do Pará. Acredito que organizar e publicar um festival como esse, com produção local, nacional e internacional é um meio contagioso de cartografar as "identidades cênicas" do palco-Brasil. Para quem quer saber um pouco de Wlad Lima.
Wlad Lima é atriz, cenógrafa e diretora de teatro. Professora e pesquisadora da ETDUFPA - Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará. É diretora artística dos seguintes grupos de teatro da cidade: Grupo Cuíra do Pará, com atuação na zona central do meretrício de Belém e da Dramática Companhia, na preparação dos atores em espetáculos-solos. É proprietária e administradora do Teatro Porão Puta Merda, seu atelier-residência no bairro da Campina, centro comercial de Belém. Foi consultora artística da Fundação Curro Velho, ligada ao Governo do Estado do Pará, de 1991 a 2006 e Coordenadora de Artes do Instituto Universidade Popular – UNIPOP- de 1996 a 2003. Graduada em Ciências Sociais, mestre em Artes Cênicas pela Universidade da Bahia e atualmente, doutoranda pelo mesmo programa de pós-graduação desta Universidade. Autora do livro DRAMATURGIA PESSOAL DO ATOR, publicado em 2005, pelo Grupo Cuíra do Pará, onde disserta sobre o trabalho do ator e diretor Cacá Carvalho, no processo de montagem do espetáculo Hamlet: Um Extrato de Nós, com atores paraenses. Sua pesquisa de doutoramento, em fase de conclusão, estuda OTeatro ao alcance do tato: poéticas cênicas encravadas nos porões da cidade de Belém do Pará. Esta tese tem sua publicação prevista para 2008, com o título de TEATRO DE PORÃO. Nesta categoria de espetáculos, sua produção é a seguinte: no Porão Cultural da Unipop, A Dama da Noite montagem do Grupo de Teatro Cuíra e Hamlet do Grupo de Teatro da UNIPOP; no Espaço Mariano da ETDUFPA, Mariano montagem do Curso de Formação de Ator; no Teatro Cláudio Barradas, também da ETDUFPA foram montados Do que brincam os meninos que serão poetas, Maravilhosa Orlando, Circo Vitória e A-MOR-TE-MOR, todos realizados pelo Curso de Formação de Ator da ETDUFPA; no Teatro Bufo, Duas Tábuas e Uma Paixão e Um Beija-flor a dois metros do chão, montagens da Dramática Companhia, Água Ar Dente do Grupo de Teatro Cuíra e Devagarinho eu deixo, montagem da Escola de Bufões. Em todos esses processos, Wlad Lima esteve presente na função de encenadora, desde 1990 até 2002, num trabalho colaborativo com outros diretores e criadores de cena. Mais recentemente, em 2007, dirigiu os seguintes espetáculos: Em Carne e Osso, no Teatro Porão Puta Merda - onde também atuou como atriz - e Laquê, no Espaço Cuíra – projeto cênico com as profissionais do sexo da zona central. Na área das artes plásticas, Wlad Lima trabalha com desenho. Em 2001, primeiro foi premiada no VII Salão UNAMA de Pequenos Formatos com o Prêmio Aquisição. Segundo, participa da coletiva “Abril pra Arte”, organizada pela Associação dos Artistas Plásticos e o Museu de Artes de Belém - MABE na Galeria Municipal da Prefeitura da cidade. Terceiro, foi selecionada para a 10º Mostra Primeiros Passos do CCBEU – Pará. Quarto participa do Projeto “De Cara pra Noite”, envolvendo simultaneamente, uma mostra de artes plásticas e mostra de vídeos, realização da Dramática Companhia. Finalizando 2001, é selecionada para o 8º Salão de Artes da cidade de Itajaí, Santa Catarina. Em 2004 realiza uma exposição em “duo” com o artista plástico Walter Bandeira – um diálogo entre os seus desenhos e as acrílicas deste pintor - no Projeto “Prata da Casa”, XXXI Encontro de Artes de Belém, ENARTE, promoção UFPA. Wlad Lima , setembro de 2007. COMO TUDO COMEÇOUUMA RATAZANA DE PORÃO
Minha história, com porão, começa no ano de 1988. Este foi o primeiro ano das relações artísticas entre o ator e diretor paraense Cacá Carvalho e os criadores do Centro per la Sperimentazione e la Ricerca Teatrale de Pontedera, região da Toscana, Itália. Em função disso, dessas relações, os “italianos” começaram, não apenas a vir conhecer a região norte do Brasil - mais especificamente Belém, a cidade natal de Cacá – mas a trazer suas produções teatrais, resultados de suas experimentações e pesquisa de cena. Do Centro de Pontedera - hoje Fondazione de Pontedera de Teatro, dirigida por Roberto Bacci, o grande intercessor[1] de Cacá Carvalho[2] - o primeiro trabalho a chegar a Belém foi o espetáculo “K. l’ultima ora di Franz Kafka” com direção e interpretação do artista francês François Kahn, que eu assisti na sala de ensaio do Teatro Experimental do Pará Waldemar Henrique[3], no ano de 1989. Algum tempo depois – confesso que não sei dizer ao certo, se dias ou meses - além do espetáculo citado, François fez uma única apresentação de um segundo espetáculo baseado também em Kafka, precisamente, sobre o texto Josefina, a cantora (????). O lugar escolhido por ele para a “vivência” do trabalho, tão singular e inusitado para mim até aquele momento, foi o porão do Teatro da Paz. Um dos grandes palcos “à italiana” da região norte. Um porão mínimo, independente do fosso deste teatro, e nunca usado antes por ninguém para este fim, ou seja, a cena. Assisti ao espetáculo, extremamente fascinada pela idéia de utilização daquele espaço. Era um novo lugar para a cena; um espaço tão pequeno, mas que cabiam mil lugares; um lugar-estado de ser e de ver; uma toca de bicho, de mistérios e encantamentos. Eu estava completamente afetada, não só pelo ator, pela personagem, pela história de Kafka que me colocava entre os camundongos, os ratos, mas principalmente, me sentia enfeitiçada - definitivamente enfeitiçada, agora eu sei disso - pela idéia física-sensorial do porão. Posso brincar que foi amor à primeira vista. Que foi a minha primeira experiência de sufocamento pela e na cena. A primeira penetração no subterrâneo de um lugar, de uma arquitetura, da cidade. Nasce em mim a sensação do teatro em porão.
Sobre François Kahn, consulte o seguinte endereço:
[1] Conceito Deuziano desenvolvido no corpo da minha tese, intitulada TEATRO DE PORÃO. [2] Esta e outras questões estão em discussão no meu livro intitulado Dramaturgia Pessoal do Ator resultado de meu mestrado, que disserta sobre o processo de criação do espetáculo Hamlet: um Estrato de Nós, dirigido por Cacá Carvalho e montado pelo Grupo Cuíra do Pará, com atores paraenses e suas dramaturgias pessoais. [3] O Teatro Experimental do Pará Waldemar Henrique é o único teatro da cidade com a tipologia de palco de natureza experimental. Fundado em 1979, este teatro revolucionou a cena paraense, comprometendo todos os artistas-usuários com o seu caráter experimental. O autor de seu projeto cenotécnico foi Luiz Carlos Ripper. DIGNIDADE EM CENALourdes Barreto volta à ribalta hoje, em Laquê, para reviver no palco a difícil vida fácil dos anos 30, na Riachuelo
Era agosto de 1959 quando Lourdes Barreto desembarcou na cidade onde viveria os melhores e piores momentos de uma vida de muita luta contra o preconceito. Os anos, de lá pra cá, se alternaram entre deleites e sofrimentos. Hoje, data exata em que começou a trabalhar no Cabaré Long Beach, há quase cinco décadas, Lourdes comemora uma nova descoberta: o teatro. Entre os atores e atrizes do Grupo Cuíra, ela está de volta ao palco com a peça Laquê, que entra novamente em cartaz a partir de hoje no Espaço Cuíra. A montagem conta as nuances da zona desde a década de 1930. Diferentes de hoje, as ruas do centro inspirariam amor e luxúria nas décadas passadas. Aquele era o lado boêmio e mais animado de Belém, próximo à zona portuária onde os grandes cargueiros do Lloyd e de outras companhias transnacionais ancoravam trazendo mercadorias importadas e prontos para levar os produtos nativos, sobretudo a borracha. 'A zona era linda. O Pará, naquela época, passava pelo tempo da borracha e não faltava riqueza por aqui. Nossos clientes eram políticos e gente rica, da sociedade', conta Lourdes. E os clientes, segundo ela, não procuravam somente os prazeres sexuais. 'Muitos vinham para conquistar as moças e chamá-las para dançar', diz. Para produção do espetáculo, atores e diretores fizeram uma pesquisa no bairro da Campina. 'Não havia nada escrito sobre aquela época. Os escritores, artistas e autoridades que vinham até o bairro não admitem isso em suas obras', explica Papi Nunes, atriz.
CABARÉ
O tema principal da peça é a história da prostituta Ângela, amiga de Lourdes. Ambas vieram juntas do Nordeste para o debut no Cabaré da Madame Mimi, na General Gurjão, rua do alto meretrício. 'Viajamos de avião, na primeira classe. Vivemos o luxo. Naquela época, puta comprava roupa de cetim importado e trocava de esmalte todos os dias', conta Lourdes. Ângela, segundo a amiga, era uma bela mulher. Seu defeito foi ter se apaixonado pelo rufião Pedro, homem que lhe explorava o amor e o dinheiro. A pior frustração para aquelas mulheres era quando seus amantes se apaixonavam pelas moças da sociedade, infortúnio pelo qual Ângela passou. 'Quando ela soube do caso dele, todas nós fomos atrás da moça. Fomos presas por fazer arruaça no casamento de Pedro, mas, como muitos de nossos clientes eram delegados, logo depois estávamos livres', conta Lourdes. A prostituta apaixonada não agüentou o sofrimento. 'Todos os que assistem acabam chorando, vendo todo aquele glamour se desfazer', diz. Na década de 1970, a zona sentiu a mão de ferro dos militares. Se, anos antes, os marinheiros buscavam aventuras pelo bairro, dessa vez a ditadura militar fechou as ruas e espalhou o medo entre as prostitutas. 'Foi uma guerra', conta Lourdes. 'Anos depois, soube que aquilo só aconteceu porque o governador Alacid Nunes havia passado de carro pela Riachuelo e, como era o baixo meretrício, uma prostituta mostrou os genitais para ele'. Com a operação, ninguém saía ou entrava na zona. Lourdes e suas colegas só contavam com a igreja e a ajuda mútua. De um lado, a loucura e o desprezo. Do outro, o trabalho e o amor. 'É um trabalho como outro qualquer. Me trazia vida. Por outro lado, sei o que é deitar na cama com um homem sem gostar. Também conheço na pele o significado de abuso sexual', diz Lourdes. A zona, no entanto, dispunha de certa organização. Meretrizes de um cabaré não freqüentavam outra casa noturna. E, além da disputa entre cafetinas, segundo Lourdes, a prostituta que se deitasse com o amante de outra sofria violentas represálias. 'Quem fizesse isso corria o risco de levar uma navalhada no rosto', conta. Enquanto a zona vivia seu auge, sexo era mais que um tabu social. O local precedeu a revolução sexual, mas dava ares do que estava por vir. 'Naquele tempo, era mais difícil fazer sexo. Nós também éramos educadoras sexuais. Muitos jovens, chamados de ‘bigodetes’, nos procuravam para aprender como fazer com as esposas', conta Lourdes. Segundo a ex-prostituta, as profissionais sofriam muito menos que hoje. Antes das noitadas, as rameiras dançavam, bebiam e namoravam as companhias. 'Havia as dançarinas de cartão. Os homens compravam cartões para dançar e beber com as mulheres. Quem não quisesse ficar bêbada disfarçava com suco de uva', lembra.
LAQUÊ
Ao longo dos anos, as mudanças sociais persistiram e a cultura da zona do meretrício se perdeu. Mas não completamente. O objetivo do Grupo Cuíra é, justamente, resgatar o cheiro de Laquê das antigas ruas e transformar o bairro. A peça reúne 20 atores, entre alunos da Escola de Teatro da UFPA e moradores do bairro. 'Nos sentimos responsáveis com o entorno', diz Wlad, que dirige a peça ao lado de Claudio Barros. Segundo Lourdes, a peça é o que faltava para completar sua experiência de vida. 'O Gempac não conseguiria sozinho', diz, sobre o Grupo de Mulheres Prostitutas da Área Central, organizado por Lourdes há 17 anos e uma referência no que se refere à prevenção das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs), ao combate à exploração sexual infantil e em projetos de promoção social envolvendo familiares das profissionais do sexo . 'Quem não era atriz, atuou muito bem. Entrar na hora certa e cantar na hora certa não são trabalhos fáceis', diz Papi Nunes, uma veterana do teatro e que agora também volta aos palcos. Depois de anos dedicados à profissão e à luta contra a exploração sexual, o tráfico de pessoas e à prevenção de DSTs, Lourdes sobe ao palco com o espírito de quem viveu o enredo contado pela peça passo a passo. Hoje, mãe de quatro filhos e avó de dez netos, a atriz Lourdes Barreto permanece como articuladora do Gempac, e presta serviços para o Governo do Estado. Moradora da zona, ela defende a área e acredita que a Campina pode voltar a ter o antigo glamour. 'A zona ainda existe, mas não daquela forma. Hoje, só está melhor por causa do trabalho que o Cuíra vem realizando, com a revitalização da área e o trabalho social', diz. Serviço: O espetáculo 'Laquê', do Grupo Cuíra do Pará, será apresentado às sextas-feiras, sábados e domingos de agosto, às 21h, no Espaço Cuíra (Riachuelo, esq. 1º de Março). Ingressos a R$ 20 (com meia-entrada). CORPO ANCESTRALOlá Wlad,
Não me lembro ao certo o por que, mas sei que sua apresentação me fez
Gosto muito de trabalhar com mitos e símbolos. Talvez essa seja a minha
Ver seu corpo pela primeira vez na peça foi muito forte. Tive a impressão de assistí-lo em camera lenta, como assistimos aos documentários sobre vida animal nos canais tipo national geographic. Achei-o também ancestral. Há muito a visão de um corpo não me permitia realmente perceber o que é um corpo de verdade. Suas partes, seus movimentos, seu equilíbrio. Por acaso
Dessa forma sua peça foi para mim um grande mergulho no íntimo do ser humano. A cada momento percebi imagens, gestos e palavras que levaram diretamente a esse mundo de sonhos e incosciente.
Espero que tenha sido útil ao seu trabalho de pesquisa e mestrado. Agradeço muito a oportunidade que tive de assistir sua peça e espero que ainda mantenhamos contato e quem sabe algum dia trocar mais figurinhas sobre nossos trabalhos. Um grande beijo e abraço ExtremArt (11) 3881-4418 / 8446-6664 O ESPECTADOR COMO CONSTRUTOR DE SENTIDOS
Cenas EM CARNE E OSSO nas “alcovas” da Casa 69 - Riachuelo Uma casa antiga te recebe com incensos. Uma luz fluorescente verde ilumina e realça um singelo jardim. Os aromas das plantas noturnas invadem os ares noturnos. Parece guardar silenciosamente algum segredo, um texto, um substrato em seus porões. Uma mulher te recebe e te (in) põe suavemente a tarefa de responder um questionário com algumas perguntas sobre teatro, sobre sim e não, sobre sensações. Aguarda-se numa sala simples, decorada com cadeiras antigas postas em circulo e recortes de jornal nas paredes que denunciam estupros e abusos sexuais de criança e adolescentes. Uma foto para registro do publico, e a mulher desaparece por uma escada interna, reaparece a cada tocar de campainha. Outro espectador é recebido com uma frase cordial: entre e fique a vontade. Como ficar a vontade em uma casa que parece ter alçapões que farão com que caiemos em espécies de armadilhas temáticas? Esse espaço e tempo de espera mostraram-se mais tarde; é uma ante-sala, uma sala de espera que guarda em suas paredes, disfarçadas de tinta azul, memórias de construção do espetáculo. Pela boca da atriz, ela reconta seu encontro e sua mística viagem na composição do espetáculo. Como esse espaço se inscreveu em seu corpo. Casa 69, Riachuelo canto Campos Sales. Depois daquilo que eu vi, vivi, senti, tive de ab-reagir em um grupo que eu não fui buscar, revelar um não sei se devo dizer, um não sei se é por ai, eu já nem sei o que disse e o que dizer. Um estranho em meu ouvido, mas semelhante na escuta. Sabia que estava indo assistir uma peça de teatro, mais ao ler o programa da peça, um texto encharcado de desejos, imagens avulsas começaram a me remeter a um possível crime que teria acontecido naquela casa, e que seriamos testemunha de sua recomposição, e juizes dos nossos olhares. Como disse a personagem... a boca que fala se faz cúmplice do ouvido que escuta. Essa imagem permaneceu em mim, adormecida...Tive sonhos nada tranqüilos. Musica infantil rolando, ouço agora. As Canções Curiosas de SSANDRA PERES e PAULO TATIT soam como um encantamento, como uma isca para o espectador não fugir, aguçou a curiosidade infantil que habita em mim, a onipotência infantil que habita em mim, assim fez-me seguir o convite da mulher que aparece, desaparece, reaparece. A convite da mulher que aparece, desaparece, reaparece da sala de espera sinaliza que devemos subir uma escada de fora da sala. Essa noite tem chuviscos, a natureza parece espreitar a cena e quem sabe participar, parece querer atravessar comigo os labirintos da casa, seus corredores, que tem no fundo em mim um prazer infantil sado-masoquista. Uma personagem convida para o espetáculo no corredor de uma sala de visita. Um texto convite dizendo que tudo aquilo é teatro. Tarde demais. Não consigo escutá-la. A curiosidade infantil me arrasta para outra escada com alguns degraus. Um ator nos oferece um texto curioso que parece falar e suscitar em sua fala a presença de alguma coisa inusitada, insólita – O ATOR. Outro clássico convite: centrem-se, não precisam ficar tão a vontade. Um texto reveza-se sobre os atores. Esta ávido para se dizer. Seu foco, O ESPECTADOR e o ATOR. Um texto marcado por posições territoriais. O texto rizomático e rizotônico busca o ator. Não, não é um conceito de ator, conceito de teatro, mas a mística da representação. A ficção como MISTICA. Sim a personagem MISTICA do quadrinho, a mística azul como a parede do porão da casa 69 que transformou-se e transformou as misérias e os mortais em X-ATORES. Uma trissomia-vaginal teatral é PERSEGUIDA. Outro texto arranha o espectador. Úmido como as vaginas, dúbio como as esfinges, sedento como um vampiro. Nesse porão, os atores não coçam os sacos, nem endurecem os pênis, como diz CLAUDIO, os atores deveriam BARRAR a falsa onipotência fálica do ator, e deixar-se vaginal. Movimentos nitidamente marcados, textos ditos e não ditos, revelam devires, sinaliza para o espectador: Acorda meu! Te toca, isso é TEATRO. Não acredite em tudo o que você vê. Mas creia em uma coisa, é uma peça de porcelana pintada com o sangue de uma cena de um assassinato de uma criança surda, encontrada morta de quatro, afogada na lama, com a cabeça afogada na lama. Uma memória que persegue a atriz principal Wlad Lima. Dramaticamente babando e suando seus parceiros, companheiros e alcoviteiros nos diálogos auto e hetero EM CARNE E OSSO, Olinda Charone e Cláudio Barros, nos presenteiam com uma experiência VISERAL. Essa bateu no fígado!!!! Singelo, um menino, muito menino ainda, brinca com seu pai no porão de uma casa, poderia ser daquela casa. É um menino, muito menino ainda porque não sabe contar em seqüência crescente nem decrescente. De costas para a parede, Singelo sente seu pai esfregar-lhe o pênis na bunda narrando uma partida de futebol. Começa a angustia de alguns espectadores, que mais tarde será evidenciado na sala de espera. Uma mãe que parece sentir ciúmes do filho porque e amado, violentado, acariciado pelo pai ameaça-o assá-lo no forno. Chama-o de gordo, gordo, gordo das investidas bem sucedidas de um adulto. Vejo uma mulher traída, pelos homens. Um pai que dispensa ao filho ora erotismo violento, ora ludicidade erótica. Os sonhos de Sereno trazem para a cena figuras violentas e escatológicas as cobras, e figuras lúdicas e eróticas como as baratas que ele acreditava que seu pai apanhava para jogar em cima de sua mãe. Quando Sereno diz que ele prefere as baratas, a cena lúdica erótica parece confundir suas sensações de prazer experimentado com seu pai. O texto e as cenas são como um bisturi, vão esbarrando, arranhando, marcando a presença, revelando fantasias de risco que tivemos(?) com os adultos próximos e distantes. Em muitos casos é preferível ficar saudavelmente adormecida. Fantasias de Risco que no sub-consciente - daquele que se vê e não se vê, que fala e não se escuta - vaza pelos labirintos do mundo onírico. As intimidades erigidas pelo assunto, pelo numero reduzido de espectadores, pela proximidade com o palco mobilizam campos afetivos inconscientes. Não sejamos sádicos em convidar pessoas que não freqüentam teatros, os teatros experimentais, são para quem vislumbra – tanto expectador quanto ator – um movimento ente/entre transações existenciais e sensibilidades estéticas. Muito obrigado por poder tê-los aplaudido, por ter estado ai com vocês. Nunca, uma expressão se fez tão significativa. MERRRRDA!!!! Luiz Carlos de Carvalho Dias ,
Nas fotos, abaixo, Lula e os espectadores que estiveram na apresentação do dia 18 de maio de 2007, como ação participativa no Dia nacional de combate e denúncia contra o abuso sexual de crianças e adolescentes - Brasil
EM CARNE E OSSO NO YOUTUBE Um filminho com imagens do espetáculo EM CARNE E OSSO para vocês assistirem.
TEXTO DE AUTOR PARAENSE ATRAVESSA A VIDA E A CENAUm texto de Edyr A. Proença, publicado em seu blog POLAROADS Instantâneos da vida , no dia 09 de abril de 2007, que vale muito republicar aqui nesta DRAMATURGIA DE UMA ATRIZ.Abuso de CriançasEstou há muito tempo para escrever algo a respeito do estupro de crianças. Gosto muito delas. Gosto de brincar, sobretudo com o ser que lhes habita o corpo em jogos de inteligência, alegria, bom humor. Tenho, em função do mundo atual, o costume de pedir licença aos pais, de maneira a desarmá-los de qualquer suspeita. Quando leio, diariamente, notícias referentes a esses abusos, fico impressionado. Diariamente, fico impressionado. Hoje li que metade das crianças na Índia pode já ter sido estuprada. Aqui em Belém, basta folhear o caderno policial dos jornais e está aquela cara assustada de gente comum, com a pecha de tarado, pois foi flagrado. Quase todos não têm explicação. Alguns, mais idiotas, ainda dizem que a culpa foi da criança, ao ficar passando à sua frente com roupas sensuais. Mesmo que isso seja verdade e é outro lado da questão, não há uma só desculpa para esse ato vergonhoso, que até já mereceu filme internacional, pois a maioria dos casos se verifica no âmbito doméstico, com pais, padrastos, irmãos, amigos, se aproveitando das crianças. E se isso é realmente diário, no mundo inteiro, porque não dedicamos mais tempo para tentar diminuir, alertar, fazer com que possíveis estupradores reflitam sobre o que ocorre?
Seremos nós, homens, esse animal sexual? Quantos são apenas doentes, pedófilos, que mesmo cometendo ato hediondo, merecem apenas tratamento, até, quem sabe, em regime fechado? No filme Volver, de Almodóvar, o padrasto passa pelo quarto da enteada e a porta está entreaberta. A menina, de uns treze anos, troca de roupa e vemos seu perfil, com os seios ainda recentes. Ele olha cobiçando e mais tarde, a ataca. Quase todos dizem que estavam bêbados, se descontrolaram. Qual a razão? Onde está o sexualmente atrativo nas crianças? A menina do Almodóvar era uma pré adolescente, mas a maioria dos estupros é na faixa dos sete, oito anos, alguns pegam bebês, meu Deus. Será a vontade de tomar aquela carne tenra, indefesa, por isso mesmo à disposição, sem maiores argumentos? Quer tomar aquilo que já é seu, por ser filho? Considera seu, por ser filho e por isso mesmo, talvez, se vingue da mãe, que por algum motivo não o satisfaz? Ou também foi abusado quando criança e quer repetir, mas agora ao contrário, sendo o possuidor? Vê a si próprio na criança e quer devolver a agressão? Vê na criança a figura da mãe, mas indefesa, e se vinga? A velha falta de Cultura que faz com que as relações da sociedade regridam, tragicamente, ao mesmo tempo em que a televisão grita costumes do século 21, para pessoas que vivem no século 19. Os programas infantis com as crianças vestidas como prostitutas, shorts cavados, danças lascivas, aumentando a tensão sexual, quem nem assim pode ser perdoada. Em Carne e Osso, espetáculo que o Cuíra estréia no Teatro Porão Puta Merda, com Wlad Lima, Olinda Charone, Cláudio Barros, Patrícia Gondim e Oriana Bitar, também fala disso. A criança sofrendo, calada. Se contar, vai apanhar. Se contar, não vão acreditar. Se contar e acreditar, a mãe se separa do pai ou padrasto e a tranqüilidade do lar vai ser quebrada, o homem vai embora e todos ficam sem o mantenedor da casa. É muita tensão na cabeça dessa criança que então, sofre calada, meu Deus, sofrendo diariamente o abuso. Ou a mãe sabe e faz que não sabe, seja por amor ao homem, seja por medo dele ir embora. A criança conta e ainda apanha. Perde toda a dignidade. Todos os valores éticos. Não acredita no mundo, em ninguém. Se considera um lixo, sem importância no mundo. Que cidadão é esse que está em formação? Agora mesmo, uma das mulheres profissionais do sexo, que trabalha com o Cuíra em Laquê, precisou se mudar. O filho havia sido estuprado quando a mãe saiu para trabalhar. É um assunto tão sério, tão absurdo, tão violento, tão importante, e ninguém do Governo trata dele. É algo latente, uma luz vermelha a piscar sem parar em todos os lares. Como pode alguém, que não seja pedófilo, ou seja, doente, precisando de tratamento, sentir tesão em uma criança de sete anos, meninas ainda sem seios ou quadris arredondados, meninos sem nada disso? Arilene Rodrigues, a menina que trabalhou no segundo filme da série Tainá, de vez em quando passa uns dias aqui em Belém. Nós a levamos para comprar roupas. Nada do que traz é aproveitado, não só pelo desgaste, mas principalmente pelos modelos, absurdamente sensuais. E quando chegamos às lojas infantis, todos os modelos são na mesma tecla. Shorts cavados, mini saias, calcinhas biquíni, enfim, terrível. Basta ligar a tv, que no caso, fica ligada o dia inteiro e não é na Globo, mas sobretudo em outros canais, com a estética inteiramente comprometida. A ausência de Cultura levou todos a acreditar que Cultura é a mesma coisa que Lazer. Não é. Assim, quando digo que a falta de Cultura é muito mais dramática do que a falta de Educação e Saúde, sei que muitos não levarão a sério. Enfim. Estamos regredindo em tudo. Estava no McDonald’s. Ao meu lado, mãe e filhinha, classe média. Ela diz à filha “fica do meu lado pra ti pedir teu lanche”. Começa desde cedo. O império da burrice, da cretinice, violência, agressividade. Que coisa. Edyr Augusto Proença
Fotos de uma das cenas mais fortes de EM CARNE E OSSO. Na cena, Wlad Lima (menino Sereno) e Claudio Barros (padrasto), vivendo o estrupo.
VIVENDO E APRENDENDO COM O POVO DA RUANo início do século 20, Belém do Pará, em função de sua localização geográfica, tinha um porto extremamente ativo. Assim, constantemente, havia marinheiros na cidade, que para se divertir, iam até a zona do meretrício, exatamente na área onde está situado o Espaço Cuíra. Num quadrilátero formado pela Primeiro de Março, Riachuelo, Padre Prudêncio e General Gurjão, funcionaram diversas pensões, freqüentadas também por grandes figuras da cidade e altas autoridades. Nos anos 60, o governador de então resolveu fechar as casas de tolerância, que mesmo assim, com pouco movimento, prosseguiram, hoje trocando o luxo e luzes de antes, por miséria e desamparo. A Cultura vem provando seguidamente ser uma grande chance para proporcionar às pessoas uma subida de nível, seja no âmbito educacional, comportamental,mas principalmente de reflexão e auto determinação de mudança. Na convivência riquíssima com os moradores e trabalhadores do entorno, há desde palestras sobre cuidados com o corpo até atendimento odontológico, feito através de parceria com a ABO – Associação Brasileira de Odontologia do Pará e Conselho Regional de Odontologia. Nos primeiros contatos com a presidente do Gempac, Ong antiga, que cuida de prostitutas, falando a respeito do antigo glamour da zona do meretrício, Lourdes disse que naquela época, a “rua cheirava a laquê”. Veio daí o título do espetáculo desenvolvido com diversas oficinas profissionalizantes, outras destinadas ao teatro, que aos poucos chegaram neste que é tão somente o primeiro resultado. Muito mais virá. Veio O LAQUÊ! O elenco do espetáculo é grande e variado. Primeiro foram encontros e depois oficinas para liberar o corpo, liberar a alma. Assim, vieram as primeiras histórias. Homens e mulheres. Vendedores, moradores, profissionais do sexo. Então,a direção, fez seleção de atores. Apareceram moças e rapazes, da Escola de Teatro da UFPA. E começaram pra valer os ensaios. Pra falar o quê? Para lembrar o glamour da época áurea da zona. Para contar uma história de amor, dentre tantas, verdadeira. Com momentos engraçados, vibrantes, tristes, outros mais fortes e até corpos nus. Para um processo maravilhoso que além de juntar esses jovens a esse “pessoal” do entorno em uma troca altamente enriquecedora, também reuniu alguns dos mais famosos profissionais do teatro do Pará. “Laquê” se passa no tríduo momesco, pontuado pelas encantadoras marchinhas carnavalescas. Acima de tudo, é uma homenagem a Luiz Otávio Barata, que havia sido convidado e tinha aceitado vir de São Paulo para dirigir, mas, pouco antes, recebeu outro chamado, mais importante e foi pro céu. É apenas o primeiro resultado do Núcleo Zona Central. Por isso, nosso abre Alas.
Lene Lima
Vitória Margalho
Cinderela
Lourdes Barreto
Irene Natividade
Marcos Luiz Lopes
Jhonson Carvalho
Rose Borges
Landa de Mendonça
Tanara Santos
Iracy Vaz
Nara Bastos
Rafael Moreno
Heyder Moura
Leandro Haick
Hildomar Oliveira
Diego Vattos
Leonel Ferreira
Atriz convidada
Papi Nunes
Direção – Wlad Lima e Cláudio Barros Assistente de Direção – Rosa Marina Leitão Assistentes da Oficina na Preparação de Atores- Walquiria Loureiro, Maílson e Nara Bastos Dramaturgia – Edyr Augusto Proença Assistente de Dramaturgia – Tanara Santos Criação de Luz – Patrícia Gondim Assistentes de Luz – Thiago Figueredo Elton Cardoso Ronaldo Magalhães Eletricista – Edmilson Silva Direção de Palco – Oriana Bitar Assistentes de Palco e Contraregragem– Elton Cardoso Ronaldo Magalhães Cenário – Charles Leon Serruya Pintura de Cenário – Margalho Açu Aderecista – Delean Cardoso Figurinos – Bah Produção de Figurino – Cláudio Barros Costureiras – Telma Lima Preparação Vocal e Direção Musical – Lúcia Uchôa Produção de Perucas – Ronaldo Lopes Professor de Dança de Salão – Franck Coelho Assistente de Dança de Salão – Sandra Condurú Design Gráfico – Janjo Proença Produção de Base – Papi Nunes Produção Executiva – Zê Charone VENHA ASSISTIR.
EU ESTOU EM CARNE E OSSOO LUGAR E OS ACONTECIMENTOS QUE ME DESENHARAM CRIANÇA No princípio, foi preciso encontrar uma casa que tivesse um porão, comprá-la e fazer as adequações necessárias. Entre seus vários cômodos reformados, um espaço ficou vazio. Com 8m de comprimento, 2,70 de largura, apenas 2m de altura, lá estava ele! O TEATRO PORÃO PUTA MERDA: um laboratório teatral de dimensões íntimas. Nos primeiros dias, o lugar já não ficou tão vazio. Ficou azul, de um azul quase marinho. Um Rimbaud veio visitá-lo, mas logo foi embora. Aí veio à lembrança a história da Lúcia - uma menina encontrada morta, de quatro, com a cabeça atolada na lama, estuprada – e do gosto amargo da minha mudez frente a este fato. A imagem daquele corpo de quatro ficou habitando aquele espaço azulado-quase-vazio. Delicadeza em cena - nos gestos, nas palavras, nas imagens - foi uma busca constante no processo de criação deste espetáculo teatral. Tarefa dificílima foi esta, a de encontrar o delicado aonde só havia dor e brutalidade. Frente à morte violenta de uma criança, a minha indignação veio muda, seca, hipnótica. Mas foi esse silêncio explodindo tudo, internamente, que me levou a construção de EM CARNE E OSSO. Deixei o espaço ficar azul por um bom tempo até que a saudade do La Roque – meu Verlaine que partiu tão cedo, atrás de seu Rimbaud - fosse acalmando no meu coração, para só assim, construir dentro deles – espaço e coração - um esqueleto de caibros e ripas. Concebi uma estrutura cenográfica inspirada nas estivas que invadem a Baía do Guajará e são invadidas por gente muito pobre como a família de Lúcia. Vislumbrei sobre a estiva, o espectador, e sob ela, o corpo de quatro do ator. Mas fui descobrindo dia-a-dia que a posição do espectador em cena é enganosa. Na realidade ele está lá em baixo, no fosso, junto com os bichos, com os debaixo. Ele está dentro da cena, na lama. Pensando nisso - em flexionar a relação ator/espectador, palco/platéia, torná-la mais íntima – foi que me debrucei em habitar aquele lugar; adquirir hábitos dentro daquele novo cosmo-corpo-esqueleto-de-madeira. Fiquei nua, literalmente. Mas, o que contar de fato? Como contar? Com o que? Com quem? Para quem? Apropriação de si mesmo foi o princípio metodológico disparador de possíveis respostas para fazer esta criação. Remexendo o meu baú de textos, objetos, imagens, pele e ferida - que estão em mim - rasguei roubei colei de tudo, montando um roteiro de palavras e movimentos que me deixou Em carne e osso. Gritei por socorro, fiz acordos e os parceiros foram chegando. Hoje somos cinco atores-criadores em cena, uma atriz-produtora nos bastidores e um grupo: o Cuíra - grupo de uma longa trajetória de 25 anos que estamos comemorando em 2007 e que não iria me faltar nesta cena de “doutora” obviamente, visto que com ele e sua Dramaturgia Pessoal do Ator, me fiz mestre nas Artes Cênicas. C`est magique! Na cena me desenhei criança para falar das crianças que são feridas na relação com este mundo tão adulto, capitalístico e violento. Creio necessário, urgente, como tarefa do ser artista. Digo a vocês, espectadores/parceiros que estão chegando agora, que não precisam se preocupar, pois este espetáculo não é interativo, avant-garde. Ele só se quer preciso e nem sempre o é. Vocês também não precisam me perguntar o que tem de meu neste espetáculo – por que sou gorda, magra, homem, mulher, ator, atriz e tantas coisas mais – isso só a mim importa. Eu sou o ator da cena, sou criador, mas não o único construtor de sentidos. Neste espetáculo nós – atores e espectadores - negociaremos discursos, falas, sensações. Portanto, vocês vão precisar isto sim, perguntar a si próprios, o que tem de vocês em cada cena, choro, dor, em cada sonho ou em cada pontinha de amor sentida. Por uma hora vocês não estarão serenos, com toda a certeza. Vocês serão Serenos: os moradores deste nosso lugar. Vocês serão Serenos na ficção e quem sabe, na vida. E tudo isso diante dos olhos de minha alma! WLAD LIMA Belém- Pará, abril de 2007. A BIOPOLÍTICA NO TEATRO DE BELÉMCIRCUITO TÁ NA ZONA O Circuito TÁ NA ZONA é uma iniciativa de artistas trabalhadores / moradores do bairro da Campina. Nesta sua primeira versão já está com uma programação imperdível para os meses de abril, maio e junho: O espetáculo LAQUÊ do Grupo Cuíra do Pará será apresentado todas terças-feiras, às 21h no Espaço Cuíra, na Riachuelo, esquina da Primeiro de Março. No elenco atores e trabalhadores da Zona Central de Belém. É O primeiro trabalho do Cuíra no novo espaço e conta com todo o apoio do GEMPAC, entidade que representa as profissionais do sexo de Belém. EM CARNE E OSSO é o espetáculo do Teatro Porão Puta Merda que fica na Riachuelo 69, esquina da Campos Sales. Este espetáculo é um experimento cênico apresentado para 8 espectadores convidados, todas as quartas-feiras, às 20h. Quem quiser ser convidado é só ligar para 9987 7819 e falar com Zê Charone, produtora do evento. No palco Claudio Barros, Olinda Charone, Oriana Bitar, Patrícia Gondin e Wlad Lima. No U.Porão, outro espaço cultural da Campina - na Campos Sales 628, entre Riachuelo e General Gurjão - volta em cartaz o espetáculo 80 JÁ ERA! com direção de Nando Lima. O espetáculo será apresentado todas as quintas-feiras, sempre às 21h. Completando o circuito TÁ NA ZONA, todos poderão ver uma obra da artista multimídia Karine Jansen intitulada Zona de Preservação da Memória Teatral, uma instalação que poderá ser visitada no Hall do Espaço Cuíra em dias de apresentação dos espetáculos. E aí você, também TÁ NA ZONA? De terça a quinta durante os meses de abril, maio e junho você tem um bom motivo para ir aos Teatros Independentes de Belém Imagens do personagem SERENO meu devir-criança EM CARNE E OSSO. SOLOS DE VOZ EM CENA I.VOZ EM ON PROJETO DE ESTUDO PARA A CRIAÇÃO CÊNICA VERSÃO 2006 / AS BRUMAS DE AVALON
Princípios de criação: O ator será o criador de seu trabalho solo. Alguns critérios serão comuns a todos os trabalhos: Uso da palavra A criação de cena a partir do método de stanislavsk. Registro diário do processo de criação em suporte eletrônico e disponibilizado na web, em diferentes gêneros digitais, a critério do ator/criador. As obras indutoras da criação de todos os trabalhos serão os volumes de as brumas de Avalon.
Processos de criação: O ator terá encontros semanais com toda a equipe de criação e espaço onde poderá apresentar reflexões e demonstrações práticas de sua criação. Fica a critério do ator/criador a escolha de personagem, situações e textos referentes a obras indutoras. Todos os aspectos da concepção cênica serão de autoria do ator (Cenografia, figurino, maquiagem, luz, som e etc.). Todos os atores terão a consultoria técnico-artística de profissionais da criação cênica: Direção de voz – Ana Ribeiro. Direção de corpo – Bel Souza. Encenação – Jorge Gáspari e Wlad Lima. Registro do processo de criação em hipermídia - Wlad Lima. Cenografia e designer gráfico – Rose Vermelho. Produção e Interpretação – Jaqueline Vasconcellos.
O ator terá encontros individuais – presenciais ou telepresenciais -com os consultores de criação, sempre que houver necessidade.
Produtos da criação: O solo de cada ator é uma obra independente e com vida própria. Após o término do ciclo de estudo e criação do projeto voz em on cada ator terá autonomia e responsabilidade pela vida de sua criação. A possibilidade de “costura” entre os solos, dando origem a um único espetáculo, será discutida a posteriore. Todos os espetáculos solos terão o compromisso de dar créditos de realização ao projeto de estudo e criação voz em on e de consultoria aos profissionais envolvidos no projeto, em todos e quaisquer materiais de mídia. WLAD LIMA. Data: fevereiro de 2006. Contatos: http://spaces.msn.com/atorcriador/ (91) 3259 0541
SOLOS DE VOZ EM CENA II.Modos de registro de processo de criação em hipermídias Para o projeto voz em on – versão 2006.
O que são modos de registros hipermidiáticos?
São gêneros digitais disponibilizados em diferentes ambientes virtuais. Eles podem estar na web, como no caso dos documentos hipermidiáticos ou em grupos de discussão, chats, endereços eletrônicos e etc. Como o nosso trabalho é da área da cena, presencial, os documentos hipermidiáticos – aqueles que comportam uma interatividade com o leitor/ navegador e articulam diferentes linguagens, como imagens, sons, vídeos, textos e etc., são os que mais interessam. O ator/criador deverá escolher um ou mais modelos disponíveis gratuitamente em diversos provedores. Ao abrir uma conta, isto é, fazer um e-mail, ator poderá manter blogs, fotologs, vídeoblogs, podcast ou outros tantos mais, desde que, mantenham seus registros atualizados. Tarefa esta, que lhe será solicitada, constantemente. Os provedores desses formatos de fácil manuseio são: MSN, YAHOO, CLICK 21, BLOGGER E ETC. Consultas sobre esta questão poderão ser feitas, virtualmente, para Wlad Lima (contatos no final deste documento).
Os objetivos do registro hipermidiático de processo de criação dos solos, neste projeto, são:
A possibilidade constante de manter o ator/criador em um trabalho de formatação colaborativa. A necessidade do exercício reflexivo por parte desse ator/criador. A realização de parcerias entre criadores de cena em telepresença.
Estas ações estarão justificadas no decorrer do processo, logo que, as pequenas contribuições de outros criadores e amigos - leitores à distância de cada um dos espetáculos em construção - poderem ser, de alguma maneira, absolvidas no processo pelo ator/criador. Outrossim, no final, a possibilidade de termos “a vida de cada obra” a disposição de novos desdobramentos.
É de suma importância que os primeiros registros datem do momento de aceitação do convite, contendo as primeiras impressões, sensações e os primeiros entendimentos da proposta do projeto voz em on. Os registros devem cobrir todo o process o. WLAD LIMA Contatos: http://spaces.msn.com/atorcriador/ 91) 3259 0541 Cartografia de fronteira - a introdução de uma tese.
Damos o nome de criação a tudo o que promove a passagem do não-ser para a existência. (Platão, O Banquete).
A presente tese investiga e traz ao debate, modos de registros de processos de criação de artistas da cena, sua hibridação com as práticas narrativas hipermidiáticas resultantes da fusão das artes com as novas tecnologias da informática e com as novas redes telemáticas, na contemporaneidade. Resultado de um estudo exploratório que se quer reconhecido como uma cartografia dos diferentes ambientes virtuais e gêneros digitais na internet onde o teatro já se inscreve, justificando a tese estar intitulada de TEATRÁLIA: Uma Cartografia de Fronteira entre a Cena Teatral e a Cena da Hipermídia.
Com a realização desta pesquisa, me autorizo, em sua futura defesa, reivindicá-la como pertencente à confluência das artes cênicas com a nova área do conhecimento denominada de cibercultura; em favor de um hibridismo artístico-científico.
O meu interesse no estudo desses modos de registro de processos de criação de artistas da cena vem permeando todos os meus campos de trabalho - artístico pedagógico e científico. Interesse iniciado pela prática constante dos diários de bordo nos processos de montagens dos espetáculos teatrais dos quais ora fui atriz, diretora, roteirista, cenógrafa ou quaisquer outras funções que a mim coube realizar.
Problematizei minha pesquisa discutindo como as possibilidades de aplicação da linguagem dessas novas escrituras mediadas por computador podem interferir nas práticas narrativas e modos de registro do processo de criação da cena, bem como, pensá-las como instrumentos do próprio ato da criação.
O desejo de encontrar disponibilizado na internet algo como o processo de criação de um espetáculo teatral, enquanto este se processa – desejo até o momento, realizado em parte – me leva a conceber o argumento para o roteiro TEATRÁLIA: Uma Sala de Ensaio Online. Esta é uma proposta para uma escritura hipermidiática (site/blog) que será disponibilizada na web, como um espaço para o exercício de disponibilização de processos de criação de práticas cênicas em tempo real.
Muitas questões se apresentam, imediatamente após, o enunciado deste desejo. Principalmente por acreditar ser possível, não apenas disponibilizar, visitar o ensaio; brechá-lo como se faz nos reality shows, mas intervir nele, assisti-lo, no sentido de cuidar, acompanhar, alterar o trabalho, junto aos criadores. Algumas questões são aqui formuladas:
1) Como disponibilizar os ensaios de uma montagem durante o seu processo de desenvolvimento? 2) Ao disponibilizar a Sala de Ensaio na web, como proceder na condução dos ensaios? 3) Ao disponibilizar os ensaios na web, como criar meios para saber da recepção do processo? 4) Ao tomar conhecimento da recepção, de como está se efetivando? Como absorver indicações provenientes dos receptores? Como transformar esses receptores em disparadores de novos caminhos da criação? 5) Como criar, com a participação de um novo tipo de espectador, que estará presente, mediado por novas tecnologias e através das novas redes telemáticas, disposto a ser ativo no processo?
Como pano de fundo destas questões, procurei objetivar em primeiro lugar, fazer um levantamento das categorias de análise já existentes para obras dessa natureza podendo assim ser conduzida à elaboração de categorias próprias para realização desta cartografia de obras virtuais, as confluências entre as suas convenções e as convenções do fazer teatral. Procuro por obras que narrem algo tão específico como a presencial idade da cena teatral.
Em segundo lugar, estabelecer que possíveis diálogos possam ser constituídos, entre as perspectivas artísticas dos criadores da cena – tanto de suas escrituras cênicas propriamente ditas quanto de suas escritas de conteúdo hipertextual - e as teorias filosóficas e sociológicas dos autores convidados à fundamentação teórica da pesquisa.
Em terceiro - após as análises das escrituras selecionadas, propor o argumento do roteiro de TEATRÁLIA, com seus princípios, plano de processo e proposta de formato, para uma posterior publicação eletrônica. Espaço virtual, ele mesmo pensado como uma prática narrativa hipermidiática (ambiente, sítio virtual) a ser experimentada. Este sítio virtual será constituído pela Cartografia do Teatro na Web e a Sala de Ensaio Online - como espaço de disponibilização em tempo real de processos de criação de artistas da cena, da cidade de Belém do Pará, - complementadas por colunas variadas sobre o fazer teatral, especialmente da região norte onde está localizada a cidade em questão, atualizadas periodicamente, por colaboradores com suas respectivas páginas pessoais.
Atendendo aos objetivos acima expostos, o corpo desta tese está estruturado em três capítulos:
Primeiro, um capítulo trazendo os aspectos filosóficos, artísticos e técnicos desta questão. Pela cena teatral, Ortega & Gasset, Patrice Pavis, Cacá Carvalho e eu, Wlad Lima, como autora de Dramaturgia Pessoal do Ator. Na cena hipermidiática, autores como Marcos Palacios, Luis Antônio Marcuschi, André Lemos e Vicente Gosciola. E, atravessando as duas cenas, Giles Deleuze e Félix Guattari, em busca da net-cena. No segundo, uma Cartografia do Teatro na Web. Esta parte do corpo do texto se constituindo como uma contribuição aos aspectos sociológicos da cibercultura, pois foi trabalhando nesta nova dimensão da realidade social do teatro - a partir da perspectiva de uma abordagem cartográfica dos modos de registro de processo de criação da cena teatral na contemporaneidade - que me deparei com as práticas narrativas hipermidiáticas do fazer teatral no ciberespaço. Quem me acompanha nesta navegação são mais Suely Rolnik, Gilbertto Prado, Lúcia Santaella, Luli Radfahrer, André Parente, Gustavo Fortes Said e todos os criadores de cena que generosamente disponibilizam seus escritos na Net. O terceiro capítulo traz o roteiro de concepção de um sítio virtual, um site/blog, ambientando, além da cartografia do teatro na web, uma Sala de Ensaio Online. Esta é um experimento de uma Prática Narrativa Hipermidiática de Processos de Criação de Artistas da Cena a ser disponibilizada na Internet, em tempo real. O conceito de Performance em Telepresença, de Maria Luíza Fragoso será desenvolvido neste capítulo como o indutor para a criação da Sala de Ensaio.
Esta tese, construída como uma cartografia de fronteira com a hibridização de cenas/linguagens, metodologias, teorias e criadores hipermidiáticos, terá seus resultados disponibilizados aos profissionais das artes do teatro, na perspectiva de gerar uma ação concreta de conexão entre ambientes de socialidade virtual, onde, o teatro e suas escrituras, aparecem como produtos ciberculturais, reconhecidos, como cena de uma outra espetacularidade. Os processos de criação a serem disponibilizados na Sala de Ensaio Online serão sempre tratados com o princípio central da abordagem da etnometodologia, isto é, a busca dos etnométodos dos sujeitos criadores da cena teatral – por isso considero a tese, e mais o seu desdobramento, uma metodologia de caráter híbrido.
Para concluir esta introdução, esclareço que esta busca dos etnométodos, se efetivará através de minha observação participante na coordenação da Sala de Ensaio Online, acompanhada de registros foto-vídeográficos - tratados e disponibilizados em diferentes formatos hipermidiáticos – entrevistas abertas, diários de bordo (cadernos da pesquisa) e da transmissão, em tempo real, de processos de criação de espetáculos, através da utilização de webcam. Tenho certeza que isso só será possível, no pós-tese, por eu ser uma profissional que atua tanto na cena – atriz e diretora – quanto na formação de atores, autorizando-me a não só penetrar nos territórios, mas também, com eles fazer novas criações. |
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